Quinta-feira, Novembro 12, 2009

80) Riscando e rabiscando

Hoje as tatuagens estão na moda. Tatuagem e piercing. Primeiramente o culto ao corpo começou a sobrepujar a cultura da mente, tanto para mulheres quanto para homens. Depois o corpo deixou de ser um templo e começou a ser aviltado: rabiscado e perfurado. Há outras formas de prejudicar o corpo, com o excesso de álcool, com as drogas e também com a utilização de suplementos alimentares de uso veterinário, quando se deseja, quase que milagrosamente, um corpo musculoso.

Antigamente, perfurar o rosto era coisa de índio botocudo. Coisa de selvagens. As tatuagens também eram coisas de selvagens. Coisa de aborígene ou de presidiário. Agora isso tudo é moda.

Índio botocudo retratado por Rugendas

Fico imaginando que a próxima geração de idosos deve ser a mais feia que já existiu na Terra, pois esses rabiscos e furos, feitos em corpos jovens com pele lisa, com o processo natural de envelhecimento vai ficar um horror. Com as rugas e as pelancas, os velhos do futuro vão assustar criancinhas! Tenho ideia disso a partir da observação de alguns casos de pessoas que ainda são jovens, mas que a pele já sofreu alterações. Alguns desses merecem ser contados.

Velha tatuada. Pode ter sido engraçadinha quando era jovem!

Um dia destes vi uma garota vestida daquele jeito que papai não gosta: “menina bonita de perna grossa, vestido curto, papai não gosta”. Ela havia feito duas tatuagens na parte de trás de suas coxas. Eram duas coloridas máscaras astecas. Quem faz tatuagens quer mostrá-las e, por isso, seu vestido era mais curto que o normal.

Acontece que há outro processo bastante natural que as pessoas se esquecem: a possibilidade de engordar. Pois é, a menina em questão havia engordado alguns quilos e, logicamente, a tatuagem acompanhou as mudanças da pele. Enquanto a garota andava, a cada passo que dava as máscaras astecas piscavam os olhos. Um de cada vez.

O Didi Sobral, dentista tatuiano há mais de vinte anos residindo em Portugal, quando vivia aqui no Brasil teve uma namorada “avançadinha”. Ela havia tatuado uma bela iguana, pouco abaixo do umbigo.

No ano passado, Didi esteve por aqui a passeio e visitou todos os amigos que o tempo de sua estada permitiu. Quando passou pela cidade da ex-namorada, foi visitá-la. Ah, antes não tivesse ido. Guardaria lembrança de outros tempos. A mulher engordou e aquela bela iguana transformou-se em um horrível crocodilo!

A bela iguana cresceu junto com a barriga da moça, transformando-se em um horrível crocodilo!

Há coisas ainda piores. As pessoas apaixonam-se e logo vão rabiscando o corpo com o nome da amada ou do amado. Mas paixão é passageira. Amores vêm e vão. Mas o rabisco tatuado permanece. Para remediar a coisa é complicada. Há a possibilidade, em alguns casos, de apagar a tatuagem com o emprego de um aparelho de raio laser.

Mas na maior parte das situações, isso não é possível, tanto devido ao excesso de desenhos e cores, quanto pelo custo desse procedimento. Além de ser extremamente doloroso. Porém, uma das saídas é rabiscar mais uma tatuagem sobre aquela que não se quer mais, “borrando” o texto indesejado.

Aqui mesmo em Tatuí tem um exemplo desse tipo de tatuagem arrependida: Quem se lembra do Augusto Cornoló, vendedor de bilhetes? Homem com um bom humor incomparável. Pois bem, ele, apaixonado, tatuou em seu braço os seguintes dizeres: “Deus, eu e Cacilda”, para louvar seu amor.

Mas o amor da Cacilda pelo Cornoló acabou e romperam. Pouco tempo depois, ela estava envolvida sentimentalmente com um homem chamado Walter. A tatuagem, no entanto, permanecia. Não dava para apagar. Com seu bom humor, Cornoló resolveu a questão. Mandou tatuar um adendo naqueles dizeres, que ficou assim: “Deus, eu, Cacilda e Walter”.

Eis a citada moringa (ou mucura) do Cornoló!

O Augusto Cornoló é mais um que faz falta no cotidiano da cidade, com seu bordão: “não esquente a moringa”, que ele mesmo “traduziu” para o castelhano como “non caliente la mucura”.

Domingo, Outubro 11, 2009

79) Ouro de enterro

Há muitas histórias a respeito de tesouro enterrado por todo o mundo. Em Tatuí a coisa não poderia ser diferente. Aqui e ali contam casos de fortunas enterradas, geralmente próximas de alguma árvore, que serve para marcar o lugar. O ponto em comum desses casos é a existência de um guardião sinistro: uma alma do outro mundo.

Histórias sobre tesouros guardados por fantasmas são comuns

O guardião é o fantasma do proprietário do tesouro enterrado. Geralmente uma pessoa avarenta e ambiciosa em vida, que passou inúmeras privações só para acumular fortuna. Em sua vida, viu e desejou comida e objetos, mas deixou de tê-los para não gastar e, assim, guardar seu rico dinheirinho. Como não gastou durante sua vida, foi acumulando, acumulando até que, um dia, surgiram temores de ser assaltado e que toda sua fortuna desaparecesse. Que fazer? Esconder, claro! Eis a explicação para esses “enterros”. O Ivan Camargo, em seu livro sobre as assombrações caipiras, fala desse assunto. Eu, particularmente, conheço alguns “caçadores de ouro de enterro” e como o assunto está em voga, conto aqui alguns acontecimentos relativamente recentes.

Um desses caçadores é o Silvio Soldado, policial aposentado que garante ter encontrado fortunas enterradas. Meu amigo Inocencinho, um bravo e valente pedreiro, é outro famoso caçador de enterros. Tem um braço atrofiado de nascença, mas que nunca impediu de trabalhar pesado ou de enfrentar qualquer homem em uma briga. Hoje, mesmo estando bem idoso, não desistiu de encontrar um enterro que lhe assegure alguma fortuna. Durantes anos procurou em diversos lugares. Sempre que teve notícia de um local que alguém diz ser “mal assombrado”, Inocêncio já tentava encontrar uma maneira de ir lá e esburacar os arredores...

Sabendo que no sítio do Hélio “Anacleto” Camargo Barros havia uma paineira com fama de ser mal assombrada, Inocêncio me procurou para que eu intercedesse junto ao proprietário, também meu amigo, para obter autorização para ele buscar o ouro que, garantiu, estava enterrado lá.

- Eu comprei um parêio que acha quarquér metár! – disse-me o Inocêncio, explicando que tinha um equipamento apropriado para identificar metais enterrados.

- E de ‘sombração num tenho medo! Num tenho medo nem de morto e nem de vivo! – valente como é, fez questão de afirmar. Ele queria ir caçar o tesouro enterrado no sítio dos Camargo Barros junto com o Santo Galvão, seu vizinho. Mas se o Inocêncio não temia nem vivos e nem mortos, não era o mesmo caso do Santo. Quando indaguei se ele também ia procurar o enterro, ouvi como resposta:

- Iiih, “capaiz”! – disse o Santo. – Eu é que num vô mexê cum árma d’otro mundo! – completou. E com isto, não foram mesmo. Nem o Inocêncio e nem o Santo. Um por falta de companhia e o outro por medo.

Mas o boato do ouro de enterro naquele local já tinha chegado a outros ouvidos. Muita gente procurava o Anacleto para tentar uma autorização visando encontrar o ouro enterrado. Um belo dia, enjoado de tanta gente abordá-lo com o mesmo assunto, Anacleto resolveu permitir a busca do tal tesouro em sua propriedade. Permitiu que o Francis Pássaro e seu amigo Clovinho Lima desenterrassem o tal tesouro.

Faltou pouco para chegarem na China!

Ah, que ânimo desses caçadores de tesouro! Se todos tivessem a mesma disposição dessa dupla para cavar, o mundo já teria túneis que chegariam até a China! Os dois passaram uma semana em atividade ao redor da tal paineira. Nesses poucos dias fizeram um buraco enorme, circundando a árvore. Movimentaram centenas de metros cúbicos de terra, contando só com pás, picaretas, enxadões e enxadas...

O buraco que cavaram media uns 25 metros de diâmetro por 3 metros de profundidade, o que representa um horror de metros cúbicos de terra remexida, o que dá para encher mais de algumas dezenas caminhões basculantes!!! A terra removida, amontoada na borda do buraco, além da profundidade da escavação, permitiu que trabalhassem a maior parte do tempo na sombra quase que o dia todo. Só por volta do meio dia o sol iluminava o buraco sem fazer sombra.

Os dois caçadores tinham a impressão que iam encontrar muito ouro

Entretanto, apesar da persistência da dupla, não encontraram nem um tostão furado. Nada de ouro, prata, pedras preciosas ou qualquer metal. Tinha sim muita terra, que úmida do suor despendido na trabalhosa empreitada, formou lama que cobriu os caçadores de tesouro, deixando os dois mais parecidos com assombrações do que pessoas.

Quarta-feira, Julho 29, 2009

78) O maior jogador de futebol de Tatuí

O famoso atacante goleador do Palmeiras na década de 50 e campeão mundial de 1958, na Seleção Brasileira de outros tempos, José João Altafini, era conhecido no Brasil como Mazzola, devido à semelhança física e modo de jogar com Valentino Mazzola, ídolo italiano do Torino, nos anos 40.

Descendente de italianos, nascido em Piracicaba, começou a jogar no Clube Atlético Piracicabano, indo parar no Palmeiras em 1955, sendo considerado a grande revelação do futebol brasileiro no ano de 1957. Depois de jogar na Copa de 1958, acabou transferindo-se para a Itália, onde jogou até mesmo na seleção italiana. Vive até hoje em Turim, onde é comentarista de futebol para um canal de TV e uma estação de rádio.

Entretanto, enquanto não tinha fama, jogou em Tatuí, no Esporte Clube São Martinho e, também, no Esporte Club São Bento, de Sorocaba. Aqui começa o caso que nos interessa:

Quem conhece o Osvaldo Paes de Camargo? Pouca gente. E o Aranha relojoeiro? Muita gente! Acontece que em Tatuí não vale o nome de família, o nome que pais e mães escolhem para seus filhos. O que vale mesmo é o apelido. Aranha é o apelido de Osvaldo. Trata-se da mesma pessoa. É preciso, no entanto, não confundir com Osvaldo Aranha, brasileiro que presidiu, em 1947, a Assembleia Geral da ONU que criou o Estado de Israel. O “nosso” Aranha tem muita história para contar, mas sempre ao nível municipal, sendo que o “outro” Aranha é internacional.

Bem, mas o tatuiano tem também uma ligação internacional, pois quando jovem trabalhou para os Iazetti, tatuianos produtores e exportadores de abacaxi. De acordo com o historiador Renato Camargo, a função do Aranha tatuiano era embalar abacaxis para exportação. Ele e seu irmão arrumavam os fardos que eram colocados em um trem e, em seguida, levados à Santos, de onde, embarcados em navios, eram exportados para os Estados Unidos e para a Europa.

Em sua juventude, o Aranha tatuiano foi um dos melhores jogadores de futebol que Tatuí já teve. Um verdadeiro craque goleador. E isso exatamente em uma época em que o futebol tatuiano era um dos melhores do interior paulista. O XI de Agosto conquistou o bi-campeonato amador do Estado de São Paulo, que nessa ocasião não era pouca coisa. O feito do time da égua vermelha foi tão grande que lhe valeu uma menção até mesmo no hino de Tatuí. No estribilho do hino, junto ao amarelo-ouro do abacaxi que o Aranha embalava para exportar, vem a lembrança de “Tatuí do XI de Agosto”. Essa menção advém das glórias do time tatuiano.

Pois bem, o Aranha era jogador titular do São Martinho e, em certa ocasião, veio jogar nesse time nada menos que o Mazzola. Em quem posição? Mazzola foi reserva do Aranha! Algum tempo depois, Aranha foi jogar em Sorocaba, no time do São Bento. Tinha também um reserva: o mesmo Mazzola.

Dada a importância do Mazzola para o futebol nacional e internacional, é preciso considerar o Aranha como o “maior jogador de futebol de Tatuí de todos os tempos”! Além do Aranha, Mazzola só perdeu o lugar de titular para o Pelé, ainda na Copa de 1958, voltando dois jogos depois para substituir o não menos famoso Vavá. No Brasil, Mazzola perdeu sua condição de titular uma vez para Pelé e duas vezes para o Aranha.

Hoje, se você desejar um belo relógio, procure o Aranha. Sua especialidade é negociar relógios:

- Este é um legítimo “Oméga ferradura”! – o Aranha costuma oferecer.

- Tenho também Roscoff Patent, Patek Philippe, Technos, Dumont e este outro Oméga, sem ferradura, mas que é uma beleza!!! – continua oferecendo.

Além do Aranha temos em Tatuí o Adhemar, filho do Tio (isso mesmo, seu pai é o Tio, vereador de Tatuí), que foi artilheiro do São Caetano e, com seu chute poderoso de esquerda, jogou no futebol alemão, no Stuttgart. É uma bela carreira, mas não teve um reserva tão importante e, por isso, consideramos o Aranha como ”o maior jogador de futebol que Tatuí já teve”!

Quarta-feira, Julho 15, 2009

77) Telegrafistas engraçadinhos

As ferrovias já cumpriram um papel muito mais relevante nos transportes brasileiros, sendo relegadas a um plano inferior devido às políticas de sucessivos governos. A consequência disso são os custos de transporte e da logística da exportação do país, inviabilizando muitas áreas que poderiam gerar mais riquezas.

Mas no assunto ferrovia Tatuí foi uma cidade privilegiada, pois ainda no século 19 recebeu os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, o que significava que estava ligada ao resto do mundo. A sigla da Sorocabana – E.F.S. - servia até mesmo como um código de endereçamento postal, em uma época em que não havia o CEP. Endereçava-se uma carta para Tatuí junto com a sigla E.F.S. Pronto, com isto não tinha como errar: era só enviar uma encomenda ou carta com essa referência que chegava em seu destino.

O tatuiano Cícero Serrão trabalhou na Sorocabana mais de 35 anos. Fez de tudo por lá, aposentando-se como Chefe da Estação. Certo dia, quase na época de se aposentar, recebeu um novo funcionário, a quem passou a mostrar a estação e explicar suas funções. No momento em que chegou um trem, viram que outro funcionário, o truqueiro (uma função de ferroviário), pegou uma barra de ferro e pôs-se a bater nas rodas da locomotiva: blém, blém, blém, blém... O novo funcionário que estava com o Serrão observou e estranhou aquilo. Quis saber de que serviam essas batidinhas.

- Ô seu Cícero, por que aquele funcionário bate com isso nas rodas do trem? – perguntou o rapaz.

- Ah! Faz 35 anos que eu vejo alguém fazer isso, todos os dias, e ainda não sei e você quer saber já no primeiro dia! – foi a resposta que o Serrão lhe deu, deixando o rapaz completamente confuso.

Antes de ser Chefe de Estação, Serrão foi telegrafista. O telégrafo foi o primeiro meio eficiente de telecomunicação, inventado por Samuel Morse, consistindo na emissão de sinais – pontos ou traços – que representavam letras, números e pontuação. Com o tempo a pessoa vai decorando os pontos e traços e consegue travar uma conversação bastante rápida utilizando-se desse código.

O Código Morse usa traços e pontos substituindo letras, números e pontuação

O código original de Samuel Morse foi modificado, aperfeiçoando até que quase nada resta de sua configuração original. Nas ferrovias brasileiras o modo de comunicação era sempre o telégrafo, que também era utilizado por todas as pessoas que precisavam comunicar-se com locais distantes. Fui algumas vezes com meu pai na estação de Tatuí da Sorocabana quando ele precisava passar um telegrama.

Certa vez, estando em Itararé (a ferrovia que passa por Tatuí é o “Ramal de Itararé" da Sorocabana) provavelmente realizando um treinamento, Cícero Serrão hospedou-se em uma pensão dessa cidade, juntamente com outros colegas de diversas cidades. Depois de jantar ou almoçar, ficavam distraindo-se brincando de telégrafo, batendo com talheres em copos cheios de água, enquanto conversavam à mesa, observando todos que ali estavam.

Lamartine Babo era mesmo esquisito

Aparecia uma moça bonita e um batia em seus copos, “telegrafando” para o colega com seus pontos e traços: “O-L-H-A-espaço-Q-U-E-espaço-M-OÇ-A-espaço-B-O-N-IT-A”... Entrava outra pessoa, já “telegrafavam” outra coisa qualquer, fazendo comentários sobre ela, a maioria deles jocosos. E assim passavam o tempo...

A estação de Itararé era uma das mais importantes da Sorocabana. Além de ser o final do ramal que se inicia em Iperó, liga o Estado de São Paulo com o Paraná e era também onde aconteciam as baldeações da Sorocabana para as ferrovias que iam ao Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.

Certa noite, retornando do sul do país, apareceu em Itararé o famoso Lamartine Babo, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Compunha, entre outros gêneros, hinos de times de futebol, como o “Hino do Flamengo” e marchinhas de carnaval, sendo que uma das suas mais famosas é a marcha “O Teu Cabelo Não Nega”.

Enquanto aguardava um trem para prosseguir sua viagem, Lamartine foi à mesma pensão em que estavam Serrão e seus colegas para jantar. Ah! Com sua figura esguia e um tanto esquisita, no mesmo momento tornou-se alvo da brincadeira do Serrão e seus colegas:

Um deles, batendo nos copos, com o código Morse “telegrafou”: tlim, tliiiim, tliiiim, tlim... - “MAGRO, FEIO E DE VOZ FINA”. E começaram a rir.

Lamartine Babo levantou-se de sua mesa e, pegando duas facas, bateu nos copos da mesa do Serrão: “MAGRO, FEIO, VOZ FINA E EX-TELEGRAFISTA”! O homem entendia o código Morse!!!

Ah, quanto sorriso amarelo! Acabou com a graça deles. Os amigos ferroviários não sabiam como pedir desculpas ao homem, mas Lamartine era conhecido pelo seu bom humor e a coisa toda acabou mesmo em gargalhadas.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

76) A Lambreta do Del Bem

A moda no final dos anos 50 e parte dos anos 60 era ter uma Lambreta ou Vespa. A indústria automobilística brasileira dava seus primeiros passos e comprar um automóvel era um sonho distante para a maior parte da população. Mesmo uma Lambreta ou Vespa não era para qualquer um, entretanto, ainda era um sonho que poderia ser possível.

Vespa vermelha

Algum tempo depois a moda passou. O sonho de consumo passou a ser o automóvel: Volkswagen Sedan, DKW, Gordini, Simca, Aero-Willys, etc. A moda era o Fusca!

Alguns anos depois, a motoneta voltou a entrar na moda. Todo mundo queria ter uma, além, é claro, do Fusca.

Nessa segunda vez em que as motonetas ficaram na moda, meados da década de 1980, o advogado e contador de "causos" Luiz Del Bem Jr. trabalhava na CESP e, com muito entusiasmo, comprou uma Lambreta. Era uma motoneta vermelha, bonita, barulhenta e poluidora. Ninguém ligava para isso nessa ocasião.

Lambretta

Prestimoso, quase nem andava com a sua joia. Ficava o tempo todo guardada na garagem da CESP, devidamente coberta com uma lona. Era um misto de veículo e namorada, pois ele tinha ciúmes de sua Lambreta. Ninguém podia mexer na bichinha, que arrumava uma encrenca na hora!

Certo dia, porém, teve de ir ao banco e, sem alternativa, montou na Lambreta. Uns minutos depois chegou ao Banespa, seu destino. Estacionou a motoca em frente à Ótica Peixoto e entrou no banco. Ah, mas estava preocupado! E se roubassem seu tesouro?

Sentou-se em frente ao gerente para tratar de negócios, ao mesmo tempo em que olhava para a rua, vigiando a motoca. Olha aqui, olha lá, impaciente, agitado... o gerente teve a impressão que o Del Bem havia ficado estrábico, pois colocou um olho nele e outro na rua.

O gerente do banco ficou preocupado com as atitudes do Del Bem. Pensou que ele estivesse tendo um treco qualquer e, por isso, resolveu a coisa rapidamente. Ainda bem, porque se aquilo demorasse mais 2 minutos o Del Bem ficaria vesgo para sempre!

Com um olho no gerente e outro na Lambreta, Del Bem arriscava ficar completamente estrábico!

Aliviado, saiu logo à rua. Não conseguiu atravessar a rua em um primeiro momento, pois o sinal estava aberto na Rua Onze e os carros passavam rapidamente. Quando o sinal foi fechando, percebeu que alguém saía montado em uma Lambreta vermelha. Um ladrão?

Não teve dúvidas, atravessou correndo a rua e, com um pulo, grudou no pescoço do rapaz que pilotava a Lambretta. Apertou o quanto pode. O rapaz, assustado, tentando se ver livre daquela situação, acelerou a motoneta.

Del Bem, com grande presença de espírito, levantou a parte traseira da Lambreta, que ficou com a roda girando no ar, mas sem conseguir sair dali. Gritava para o rapaz desligar o motor, mas acho que ele nem escutou, pois o ruído da máquina era alto. A fumaça do motor de 2 tempos enchia a rua, chamando a atenção de todos que ali estavam, inclusive de alguns policiais. Com a Lambreta acelerada e a roda girando em falso no ar, Del Bem olhou o velocímetro da motoneta, que marcava quase 100 quilômetros por hora.

Nesse mesmo instante, com o rabo do olho, viu estacionada em frente à Ótica Peixoto, a sua Lambreta. Imediatamente percebeu seu erro e soltou o pescoço do rapaz e a traseira da motoca. Quando a roda tocou no chão, girando em rotação máxima, o pneu patinou um pouco e a motoneta partiu como um raio, fazendo zig-zag, mas habilmente equilibrada pelo rapaz, que sumiu em instantes.

Os policiais, percebendo que o rapaz havia escapado, iam saindo em perseguição, quando o Del Bem, tentando disfarçar a situação, disse que o deixassem ir. Era um rapaz bem jovem e que, certamente, não tinha habilitação, apesar de sua habilidade em pilotar. Não quis conversa e desapareceu.

Todos ficaram intrigados com o acontecido, mas quando o Del Bem montou em sua Lambreta vermelha, idêntica à do rapaz, entenderam a cena e o engano ocorrido. Gargalhada geral!

Quinta-feira, Junho 25, 2009

75) Manolita não perdoa

Já faz alguns anos que o professor Wilson Bertrami apresenta um programa na Rádio Notícias de Tatuí. É uma programação de músicas antigas direcionada para saudosistas. Uma das músicas mais recentes que Wilson toca em seu programa é Kalu, um grande sucesso do final dos anos 40 e início da década de 1950. Antiquíssima, mas se mantém firme na grade do programa dele.

Outra música que se fez presente em seu programa é a outrora famosa Manolita. A letra dessa canção fala do romance de um toureiro com uma moça de Sevilha, moça esta que consultava uma cartomante a respeito do amor de Pedro, o toureiro. Fez tanto sucesso na década de 40 em todo o Brasil. Não havia uma festa, um encontro, uma programação de rádio ou um baile em que essa música não fosse exaustivamente tocada. Onde havia uma orquestra, logo aparecia um pedido:

- Toquem a Manolita! – em uníssono todos gritavam.

E a orquestra tocava, tocava, repetia, repetia. Ô música danada! De tanto repetirem a tal Manolita, ficou desvalorizada. Até a nota de um cruzeiro, lançada pouco tempo antes da gravação dessa música e que já nessa época valia quase nada, foi apelidada de “manolita”. Tocou tanto, mas tanto, isso em todo o Brasil, que não havia pessoa no país que não conhecesse sua letra.

De repente, alguém espalhou que essa música dava azar e quem cantasse a danada Manolita teria sérios problemas. Ih, foi o que bastou! Ninguém mais cantava. Os pais proibiram as crianças de cantarolar em casa. - Isso dá azar! – afirmavam. Em pouco tempo foram deixando de cantar, ouvir até que todos se esqueceram da Manolita. Ninguém mais se lembra da Manolita.

Ninguém, vírgula, porque Wilson Bertrami resolveu tocar a tal música em seu programa. Tocar ele tocou, mas não se sabe qual foi a reação de seus ouvintes. Pouca gente gosta de ouvir a Manolita, porque ainda se lembram de sua triste sina e de seu final horroroso: a morte do toureiro.

Wilson Bertrami não acredita em azar e, por isso, tocou a danada Manolita. Nesse dia, logo depois de voltar de seu programa radiofônico, estava com mil dólares em sua carteira, um dinheiro que sobrou de uma viagem que fez. Como não precisava daquele numerário, resolveu guardar. Mas guardar onde? Os bancos não aceitavam depósito em moeda estrangeira. Mas como sua esposa tinha um belo oratório com algumas imagens de santos de sua devoção, Wilson teve uma ideia:

- Vou guardar no oratório! – resolveu.

Enrolou as notas de dólares e enfiou na estátua de São Judas Tadeu, santo das causas desesperadas ou perdidas. É realmente um ótimo local para guardar dinheiro, dentro do santo, um costume que já vem desde o tempo do Brasil Colônia, com os contrabandos em santos-de-pau-oco. Assim foi feito.

Santo do pau oco

Logo Wilson esqueceu-se daquele dinheiro. Um homem como ele, trabalhador e previdente, não costuma passar apertos. As coisas sempre estão dentro do orçamento.

Pouco mais de um ano depois, quando o câmbio estava bastante favorável para quem possuía a moeda norte-americana, Wilson lembrou-se de seus dólares. Ao procurar o São Judas Tadeu em seu oratório, entretanto, teve uma desagradável surpresa: a estátua não estava mais lá!

- Onde está o São Judas Tadeu? – perguntou à sua esposa.

- Ah, faz tempo que a empregada derrubou e quebrou! – foi a resposta que ouviu, quase sem acreditar.

- E o que foi feito dos cacos? – desesperadamente perguntou.

- Levei ao cemitério. Naquele local onde as pessoas depositam estátuas e imagens de santos quebradas! – sua esposa explicou.

Wilson pegou seu carro e foi até o cemitério, com a esperança de encontrar os restos do São Judas Tadeu e que nesses restos ainda encontrasse os mil dólares. Nada! Nem santo, nem cacos e nem dinheiro! Logo fez a ligação: ele guardou o dinheiro logo depois de tocar a Manolita, a música que dá azar! E não adiantou pedir para o santo, pois os dólares não voltaram.

Alguém foi premiado com os mil dólares

Quero acreditar que alguém encontrou os mil dólares e deve ser até hoje devoto de São Judas Tadeu, o santo das causas desesperadas e perdidas. E nem sabe que, na realidade, deve tudo à maldição da Manolita. Depois disso, Wilson Bertrami continuou sem acreditar no azar, mas, por via das dúvidas, nunca mais tocou a Manolita!

Sábado, Maio 09, 2009

74) A joia do João

A melhor forma de vender ou comprar um automóvel nos anos 60 e 70 era através do João Bertanha, o maior vendedor de automóveis que conheci. Sua argumentação no momento da venda era infalível. O homem sabia como expor uma mercadoria, como encontrar o ponto que o freguês era convencido e a venda realizada.

Hoje, usam técnicas de psicologia, programação neurolinguistica, conceitos de marketing e tantas outras coisas para preparar um vendedor. João Bertanha nasceu vendedor. Não precisava disso. Ele acreditava naquilo que vendia e conseguia convencer o comprador. Cada carro que estava vendendo, considerava como uma joia.

- Estou oferecendo uma verdadeira joia! – argumentava.

Por causa dessa sua forma de oferecer os carros que vendia, acabou sendo conhecido com João Joia.

Certa ocasião, o Dr. João Jubran desejava vender seu Fusca. Era um daqueles primeiros Volkswagens importados e estava com ele há mais de 10 anos. Queria um modelo mais novo. Assim, foi atrás do João Joia, para que ele lhe encontrasse um comprador.

O Fusca do Jubran era bastante antigo

João Joia ofereceu o carro para algumas pessoas, mas não encontrou interessados na cidade. Tanto tempo que este carro estava com o mesmo dono, que parecia ter “assumido as feições do dono”. Engraçado isso, quando alguém tem um carro durante algum tempo, as pessoas ligam aquele carro ao seu dono e parece que um assume a aparência do outro. Neste caso a coisa não era diferente: era olhar para o Fusca e enxergar o João Jubran.

- Ah, eu não quero esse carro com a feição do João Jubran! – cada freguês que via o carro exclamava.

Não adiantava argumentar. O Fusca estava há tanto tempo com o Jubran que qualquer um que visse o carro lembrava-se de seu dono.

Mas João Joia não ia desistir. Ele vendia qualquer automóvel e considerou vender esse Fusca como um desafio. Teve uma ideia e falou para seu xará:

- Jubran,vamos até Cerquilho, que eu tenho lá uma freguesa para seu Fusca! – afirmou.

Pouco mais de uma hora depois já estavam na cidade vizinha, conversando com a tal freguesa. Como vender aquele carro havia se tornado um desafio para João Joia, ele caprichou na argumentação e, enquanto mostrava detalhes do carro, era acompanhado de perto pelo seu dono:

- Este carro é uma verdadeira joia! – começou a expor. – Olhe o porta-malas, não tem amassados! Veja o local do estepe, dá para perceber que não tem nenhuma batida! E veja só esta lataria. Não se fazem mais carros assim atualmente! – enquanto isso, batia com o nó do dedo no capô do carro: toc toc toc! – Dá pra perceber que não tem massa plástica! – Venha ver as dobradiças das portas! Nenhum ponto podre! É realmente uma joia!

Assim, João Joia ia mostrando o carro, item por item, à compradora, assistido de perto pelo Dr. Jubran. Iam os três rodeando o Fusca para acompanhar aquele rosário de elogios.

-E o motor, não gasta um pingo de óleo! – continuava explicando a situação daquele que parecia ser primor de engenharia. – Os pneus estão quase novos! Além disso, gasta pouca gasolina. Faz quase 20 quilômetros com um litro de gasolina! – enaltecia sem cessar o Fusca. A mulher, claro, estava encantada com o carrinho. Em questão de alguns minutos o negócio estaria fechado.

Em pouco tempo a mulher já sonhava pilotar aquela joia

De repente, Dr. Jubran chamou o João Joia e disse baixinho:

- Ah, é melhor não vender mais o carro. Não sabia que ele estava assim tão bom! – falou Dr. Jubran, que não quis mais vender. Voltaram com o Fusca para Tatuí.

Pois é! Não havia carro que João Joia não vendesse. Este Fusca ele acabou vendendo para o próprio dono, que ainda lhe pagou pelo tempo despendido. Esta é uma história com final feliz! Todos ficaram felizes: Dr. João Jubran com aquela joia que não sabia que tinha. João Joia com a comissão da venda para o próprio dono e ainda ajeitou outro Fusca, digo, outra joia para sua freguesa de Cerquilho. Pode?

Sábado, Fevereiro 21, 2009

73) Horário de Verão

Durante a ditadura de Getulio Vargas, o consumo de energia elétrica no Brasil aumentava constantemente e não havia fornecimento suficiente. Nessa ocasião o país se eletrificava. A saída encontrada foi implantar o horário de verão.

O horário brasileiro de verão foi estabelecido para aproveitar a luz do sol na época em que há maior luminosidade no hemisfério sul. Prevê-se uma razoável economia no consumo de eletricidade com essa mudança. Entretanto, tinha sido imposto por um governo não democrático e ficou conhecido como o “horário do Getulio”.



Na década de 1960, com a intensificação do processo de industrialização do país, ocorreram situações de escassez de energia elétrica e, em alguns anos, foi novamente estabelecido o tal horário de verão para auxiliar suplantar essa dificuldade.

É preciso acertar os relógios duas vezes por ano!

Algumas pessoas, como meu tio José, não modificavam o relógio porque, dizia:

-Esse é o horário do ‘márdito’ Getulio!

Como era teimoso ao extremo, todos os seus relógios continuavam com o horário normal o ano todo.

Getulio liderou o golpe de 1930

Essa birra contra Getulio Vargas vinha da década de 1930, quando ele deu o golpe contra Julio Prestes e assumiu a presidência, desbancando o PRP e a política do “café-com-leite” que comandava o Brasil desde o final da monarquia.

Meu avô Tonico, peerrepista e revolucionário constitucionalista, nunca perdoou Getulio, sendo acompanhado nisso pelo seu birrento filho.

No inverno, o vento frio vem da região antártica e passa por terras gaúchas, origem de Vargas, até chegar para esfriar Tatuí.

Quando ventava frio, vovô dizia:

- Arre! Do sul nem o vento presta! – fazendo com isto referência ao famoso gaúcho.

Pois bem, tio José nunca acompanhava o horário de verão em função de sua implicância com Getulio, que nessa época já havia falecido.

Havia, no entanto, outras pessoas que não acompanhavam esse horário, mas devido a outros motivos, como foi o caso de Rita, mulher ingênua que era empregada de João Augusto, o velho.



Logo depois de uma mudança de horário, Rita começou a chegar atrasadíssima em seu emprego. Ela precisava tomar um ônibus para vir de sua casa ao trabalho. Mas estava perdendo o primeiro ônibus e ficava esperando um tempão pelo próximo.

- Eu cheguei ao ponto e o ônibus já tinha passado! – explicava-se a cada atraso.

Rita ficava um tempão esperando o próximo ônibus

- Você acertou o relógio com o horário de verão? – perguntou alguém da casa em que trabalhava.

- Ah, acertei sim! – respondeu Rita.

Mas os atrasos continuaram e não conseguia pegar o ônibus. Verificaram os horários e constataram que não havia nenhuma alteração e todas as linhas estavam funcionando normalmente. Que mistério!



Em mais uma tentativa de resolver o problema, perguntaram novamente a respeito da mudança do relógio da casa da Rita, que esclareceu:

- Eu acertei o relógio, mas achei que era muito adiantar uma hora inteira e adiantei só meia hora! – explicou Rita.

Com essa sua meia-hora de verão, Rita ficou fora do horário.

Domingo, Dezembro 14, 2008

72) El hombre que se ríe del amor

Rafael Sangrador é um artista tatuiano nascido na Espanha. Ele é tatuiano por diversas razões, inclusive devido ao fato de ter recebido um título de Cidadão Tatuiano. Substituiu “el hombre que se ríe del amor”, outro interessante espanhol que o antecedeu em Tatuí.

El Sangrador

Mas, apesar de viver no Brasil mais da metade de sua vida, não conseguiu aprender falar o português corretamente e, para piorar, esqueceu o espanhol. Fala um dialeto confuso e enrolado que pode ser definido como portunhol, uma mistura sem regras do português com o espanhol. Uma embrulhada só, mas que com isso consegue se comunicar por aqui.

Por aqui com brasileiros, claro, porque ao conversar com um argentino, falando apenas espanhol, não aconteceu um nível pleno de comunicação, pois ao mesmo tempo em que o argentino não entendeu seu espanhol misturado com expressões do português, ele não entendeu o argentino, pois este falava corretamente o espanhol, idioma que Rafael esqueceu.

Só que ele não admite isso. Pensa que fala fluentemente tanto o português quanto o espanhol. Fica bravo quando ouve qualquer menção ao seu dialeto... Um dialeto que destrói qualquer palavra que tenha em uma de suas sílabas o som de “zê”. Parece brincadeira. Um homem que consegue pintar telas maravilhosas, retratar pessoas, natureza, criar desenhos arquitetônicos inigualáveis não se acerta com o “Z” ou com o S (quando tem som de Z)!!! Um dia destes extraiu um dente e a coisa enrolou de vez!!! Foi difícil entender!!!

As fases de Rafael em Madrid: Marcelino, pão e vinho; Meu violino é cigano e La Violetera

Mas vamos ao nosso caso: Da terra natal ninguém se esquece. Não se esquece de Madrid. Ah, Madrid!!! Rafael cresceu na capital espanhola. Foi um menino muito ativo desde pequeno. Basta lembrar os bons tempos em que ele, com uma cestinha enroscada nos braços, vendia violetas no início da primavera. Era conhecido, às vezes como “El Golondrino” e, em outras ocasiões, como “La Violetera”!!!

Para vender as violetas, cantava este estribilho, como se fosse uma andorinha piando:

Llévelo usted señorito
que no vale mas que un real
cómpreme usted este ramito
cómpreme usted este ramito,
pa' lucirlo en el ojal.


Mas a vida mostrou outros caminhos e ele deixou a Espanha, vindo ao Brasil, mais de trinta anos atrás. Cheio de saudades, quando tem oportunidade, volta lá para visitar parentes e os lugares que se mantêm vivos em sua memória.

Em uma dessas viagens, foi ele e sua esposa, Terezinha (ou Teressinha, como Rafael pronuncia) e mais uma amiga do casal.

Rafael pintando o sete

Estavam em um táxi, rodando por Madrid. Rafael, sentado no banco dianteiro, não parava de falar, mostrando todos os lugares para sua esposa e a amiga. Em certo momento, o motorista do táxi, como não compreendia o que Rafael dizia, perguntou:

- ¿E dónde es usted?

- Eu soy daqui, de Espánha! – respondeu Rafael.

- ¿De qué región?? – estranhou o motorista.

- Daqui de Madrid, mesmo! – completou Rafael.

- No reconocí su acento!!! (não reconheci seu sotaque) – falou o motorista.

- Ah, é porque agora yo só hablo português! – explicou Rafael.

- KKKKK!!!! Gargalhada geral de Teresinha e sua amiga.

- Como é que é? Você só fala português??? Onde???? KKKK



Pois é, Rafael está no limbo. Não fala mais espanhol e não consegue falar português. Com o tempo a gente acaba entendendo a língua que ele fala – portunhol e dá comunicação, mas não é nem uma coisa e nem outra: Rafael fala mesmo é javanês!!!!

Tem erros neste texto? Humm, é que, assim como Rafael, eu não falo espanhol!!!

Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

71) E então, travou!

Tatuí sempre foi conhecida pelos seus tradicionais carnavais em todo o estado de São Paulo. Era o melhor do Interior, diziam. Bons tempos... Cordão dos Bichos, com Moacir Peixoto vestido de toureiro. O Jacaré com seu traje de mulher, se exibindo como porta estandarte. As famosas fantasias de índios, piratas, odaliscas e outras mais no corso, na passarela da Rua 11 de Agosto.

Jacaré, "linda" Porta-bandeira!

O Cláudio “Polenta” Mantovanni com suas fantasias originais no “Vai Quem Quer”. O Ju Meirelles e sua impressionante criatividade para produzir fantasias. O Acassil sempre vestido de palhaço.

O Acassilzinho com sua tradicional fantasia de noiva. O Paulo Vagalume comandando as escolas de samba. E o Amado de Jesus Miranda dando shows na avenida, com seu eletrizante samba nos pés.

A cidade de Tatuí sempre foi carnavalesca por excelência. O tatuiano gosta de carnaval e de samba. Para complementar esta obsessão pelo carnaval havia também os tradicionais folguedos carnavalescos no Tatuiense, Recreativo, Tatuí Clube e na Sociedade Italiana.

Ihhh!

Um fato novo acontece na cidade. Unem-se o Recreativo e o Tatuiense. Desta feliz união surge o Alvorada Clube, com seu majestoso prédio no Jardim da Santa. Na época, poucas cidades do interior possuíam uma estrutura como esta instalada na cidade do carnaval.

Deste local e ponto privilegiado começam a surgir os famosos carnavais do Alvorada. O XI, meio enciumado com o sucesso do concorrente, precisa urgente tomar uma providência para não ficar para trás.

Quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...

Afinal, concorrência é sempre concorrência. A Égua Vermelha acolhe uma grande idéia e abre as portas para o Rizek. Desde esta data, as sextas-feiras de carnavais são preenchidas com o famigerado “Grande Baile do Vermelho e Preto”. Rizek, com sua criatividade incrível, começa a tematizar este baile carnavalesco.

O Vermelho e Preto atrai foliões de toda a região para a sexta-feira quente do carnaval de Tatuí. A coisa começa a se industrializar e virar um grande negócio para muita gente de visão. A decoração do clube, um verdadeiro colírio para os olhos dos freqüentadores e as fantasias, sempre nas cores vermelho e preto – traje obrigatório – desperta a criatividade de foliões de bom gosto. A partir daí tudo vira festa na sexta-feira de carnaval. As vitrines das lojas eram decoradas nas cores vermelha e preta e os tecidos e sapatos disputados para quem melhor queria se apresentar neste sarau carnavalesco.

O Jornal Integração, como sempre fez excelentes coberturas dos carnavais de Tatuí, se engaja nesta parada e acompanha de perto, registrando os famosos bailes do Vermelho e Preto. Todos os anos que se seguiram, o semanário escalava um fotógrafo para ficar de plantão no salão principal do XI de Agosto. O propósito era que as lentes, atentas, acompanhassem e registrassem os melhores momentos do carnaval tatuiano.

Mas, 1981 não foi um ano repleto de felicidades para o jornal... nem para o Vermelho e Preto. Neste ano, como diz na gíria, o clube estava bufando de cheio. Quem o jornal escala para a cobertura? Tchan, tchan, tchan... Dirceu, o fotógrafo. Se assim era conhecido, tinha uma razão. Era porque sempre foi bom na arte de fotografar. A expectativa para aquele ano era muito grande.

O Rei do Vermelho e Preto

Pretendia-se aumentar as páginas do jornal e disponibilizar mais exemplares nas bancas. Era ano de ganhar dinheiro. Os melhores momentos deste baile deveriam estar na máquina de Dirceu, que na época não era digital. Era filme 35mm mesmo.

E a sexta-feira foi passando e o sábado de madrugada chegando. 23 horas, meia-noite, 1 hora, 2 horas, 3 horas... E todo mundo vibrando com as melhores marchas carnavalescas. Neste horário, o Zé Reiner, editor do jornal, resolveu dar uma conferida no trabalho. Logo ao chegar no XI de Agosto, no pátio externo, dá de cara com Dirceuzinho. Sentado, meio largado em um banco, gravata desarrumada e máquina solta de um lado. Ele olha para o editor e somente teve forças para dizer:

-Travou!
O Zé Reiner ansioso, pergunta:
- O quê? A máquina?
Dirceu Fotógrafo, responde:
- Não. Eu!

Travou mesmo!!!

Este foi um Baile do Vermelho e Preto que ficou apenas na memória dos foliões. Os produtores do evento, com sua mania de exclusividade, permitiam apenas que um fotógrafo entrasse no clube para registrar o baile. Não saiu foto alguma no jornal!!!Duvidou deste caso? O Dirceuzinho trabalha na Foto Menezes. Vai lá e pergunte pra ele!!!

Colaboração: José Reiner

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

70) O Caso das Pupilas Arregaladas

Em 1979, o prédio da esquina da Praça da Matriz, onde havia o posto de gasolina do seu Chiquinho Del Fiol, já desativado nessa ocasião, estava sendo ocupado pelo Zé Turco, que ali colocou seu escritório de corretagem. Ele estava vendendo o loteamento Colina Verde.

O prédio fora construído especialmente para ser um posto de gasolina, que na ocasião tinha, assim como os outros postos da época, um formato parecido. Bem na esquina ficava a bomba de gasolina, uma pequena área coberta em que cabiam, no máximo, dois automóveis. Tinha também um salão, com uma porta aberta para a Rua Prudente, que funcionou como loja de pequenas autopeças, baterias e escritório. Aqui o Zé Turco montou seu escritório. Além disso, havia um sanitário. Do lado da Rua Cel. Aureliano ainda havia o lavador de automóveis e mais algumas dependências. Na parte superior estava o apartamento do seu Chiquinho.

O local, nessa ocasião, já não permitia que alguém pudesse parar seu carro para abastecer ali, mesmo que o trânsito ainda não tivesse a proporção atual.

Com o escritório do Zé Turco, além dos negócios, o local virou ponto de encontro. Todos passavam por lá, mais para bater papo que procurar negócios. Certo dia, eu estava lá, com o Carminho Giudicci, Euchário Holtz, Helio Vieira, Zé Turco... havia mais algumas pessoas, não me lembro quem, mas os principais personagens estão aí...

A conversa estava animada. Falávamos a respeito de viagens. Helio Vieira, ao que parecia, era o mais viajado...

Em determinado momento, o Carminho perguntou ao Helio Vieira se ele já havia viajado para o exterior. Sua resposta foi retumbante:

- Eu já dei a volta ao mundo daqui pra lá e de lá para cá! – respondeu, ao mesmo tempo em que desenhava com os dedos, no ar, um giro da direita para a esquerda e outro da esquerda para a direita circundando um globo imaginário, tentando representar com isto as suas viagens em torno do planeta. E completou:

- A primeira vez que fui ao exterior foi na Segunda Guerra Mundial, quando era cozinheiro da FEB! Estive na Itália!

Helio mostrou intimidade com o planeta Terra, desenhando um globo imaginário no ar...

A partir daí a conversa girou em torno de viagens de avião. Euchário Holtz disse que não pretendia voar porque temia que lhe desse um troço lá em cima e não tivesse tempo de ser socorrido. Tomando por base as situações delicadas que passou em algumas de suas viagens de ônibus dava até para lhe dar alguma razão.

Mas Euchário não tinha medo de voar. Certa vez, o deputado Toniquinho Pereira veio até a cidade de Tietê com seu monomotor e alguns tatuianos foram prestigiá-lo. Nessa ocasião, Toniquinho levou para um passeio, juntos, seus amigos Euchário Holtz e o Dr.Armando Petinelli. Os dois tinham corpos avantajados. Não tanto na altura, mas no diâmetro da cintura.

O passeio transcorreu sem problemas, com exceção da dificuldade que o avião teve para levantar vôo com os dois passageiros encaixados no banco traseiro do aparelho.

Euchário e Dr. Armando voaram em um pequeno Paulistinha!

Euchário contou que sentia um misto de medo e de curiosidade em voar. O pequeno avião roncou e começou a ganhar velocidade no aeroporto de Tietê. A sensação que dava é que o aparelho já estava voando. Então Euchário olhou pela janela, para olhar as coisas de cima, mas o que conseguiu ver foi apenas poeira, muita poeira.

Toniquinho Pereira, preocupado que o avião não levantava vôo, perguntou ao piloto o que acontecia. Este respondeu com um gesto, apontando para o banco onde estavam os dois passageiros convidados, dizendo:

- O peso está excessivo!!!

Toniquinho, homem experiente, disse em seguida:

- Se a pista não der, entre por aquela estradinha! - apontando para uma pequena estrada que iniciava no final da pista do aeroporto de Tietê.

Mas não precisou. O avião conseguiu levantar vôo, mesmo com aquela carga. Fizeram um vôo pela região, vindo até sobrevoar Tatuí. Em pouco tempo aterrisaram e – Ufa! – estavam de volta sãos e salvos!

Helio aproveitou o assunto e contou um caso que ocorrera com ele pouco tempo antes...

- Fui fechar um negócio em Cuiabá. Negócio de milhões! – enfatizou.

- Fomos no jatinho do cliente. Sobrevoamos diversas áreas até que ele resolveu comprar uma fazenda de 3 mil alqueires. Pertinho de Cuiabá. Terra de primeira! – explicou.

Helio deu inúmeros detalhes do negócio, do vendedor, do comprador, das terras e de tudo mais. Só que eu não consegui reter nada daquilo. Era muita informação de uma só vez. Mas explicou que o cliente ainda ficaria uns dias em Mato Grosso e ele tinha pressa de retornar. Não tinha mais o que fazer por lá. O dinheiro – uma importância significativa, segundo Helio – já estava em sua conta. Resolveu voltar em um avião de carreira.

- Peguei um Boeing e voei para São Paulo! – contou.

Aqui começou o caso que Helio nos contou nessa ocasião:

- Depois de algum tempo de vôo, já estava cochilando, percebi um corre-corre das aeromoças, todas elas com fisionomia carregada, preocupadas! Perguntei para uma delas o que estava acontecendo e ela respondeu:

- O piloto teve um enfarte!

- Que coisa! E o co-piloto? – perguntou Helio.

- Não veio! – respondeu a aeromoça quase em prantos.

Uma outra aeromoça perguntou aos passageiros, pelo sistema de som do avião, se havia lá algum piloto.

Ninguém! O pânico começou a espalhar pelo avião.

- Moça! – disse Helio. Eu já pilotei o Cessna Skyhawk!

Helio já havia pilotado um Cessna... "pouco" diferente de um Boeing!

Imediatamente a aeromoça, sem outra opção, conduziu Helio à cabine. Lá o piloto estava quase inconsciente, com muitas dores no peito. Helio tranqüilizou o pobre homem:

- Comandante, vou dar um jeito na situação! – disse, no mesmo tempo em que ocupava o lugar do piloto, enquanto a aeromoça prestava os primeiros socorros ao enfartado.

Todos nós, surpresos, ouvíamos em silêncio e com os olhos arregalados!

Nesse momento olhei para as pessoas que ali estavam. Percebi que todos estavam ouvindo com atenção, com os olhos arregalados... ninguém imaginava que um avião da Vasp pudesse levantar vôo sem o co-piloto. Helio, em tom professoral, continuava explicando a situação aos ouvintes. Disse que colocou os fones e passou a conversar com a torre de controle de Viracopos, que fora acionada, com muita dificuldade, pelo piloto.

- Por favor, diga sua posição! – perguntou o controlador.

- Eu não sei voar por instrumentos! – respondeu Helio ao controlador que o acompanhava pelo radio. – Só sei voar “no visual”! – completou.

Aqueles instrumentos eram desconhecidos ao Helio e ele preferiu orientar-se visualmente!

- Então procure uma referência em terra! – continuou o controlador.

Helio disse que baixou o avião a uma distância em que conseguia identificar os pontos no solo. Fez uma curva bem fechada, inclinando bastante o avião sobre uma cidade, observando pela janela os detalhes geográficos:

- Estamos sobrevoando Andradina! – informou.

- Então tome rumo norte e siga até Uberaba! – disse o controlador.

Helio continuou a pilotar o Boeing até Uberaba, sempre mantendo uma distância relativamente pequena do solo para observar estradas, rios, cidades e outros detalhes.

Chegou a Uberaba. Alinhou o avião na pista e colocou no piloto automático. Precisou corrigir uma ou duas vezes e o avião praticamente aterrisou sozinho. Oh, tecnologia!

Acionou os freios e o monstruoso avião foi reduzindo sua velocidade até parar completamente. Nesse momento, Helio retirou os fones e falou para o piloto:

- Comandante! Já estamos em terra!

- Quando saí da cabine, fui aplaudido por todos os passageiros! - continuou Helio. Até hoje alguns deles ainda me mandam presentes no Natal! - completou.

Deve ter sido o maior arregalamento de pupilas já ocorrido em Tatuí!

Todos nós escutamos essa narrativa em silêncio. Ninguém fez um comentário sequer. Olhei para o Euchário... ele estava com a boca semi-aberta, olhar parado e com as pupilas arregaladas. Olhei para o Carminho... seus olhos estavam enormes, do tamanho de uma xícara tamanho médio, e as pupilas arregaladas.

Olhei para o Zé Turco, ele estava pasmado. Suas pupilas por trás das grossas lentes de seus óculos pareciam dois buracos negros. Os outros que ali estavam, com olhar pasmado e as pupilas arregaladas, mantinham-se em silêncio também.

Euchário levantou-se e disse:

- Vocês me perdoem, mas tenho um compromisso! – e saiu rapidamente do local. Sem dizer uma só palavra a respeito do caso narrado pelo Helio.

O Carminho me convidou para ir embora. Levantei e saímos. Ficaram lá o Zé Turco e o Helio Vieira. Sem conversar.

Esse foi o maior arregalamento de pupilas já se teve notícia em Tatuí. Sem mais comentários!

Domingo, Setembro 30, 2007

69) Último Tango em Tatuí

As escolas tatuianas nos anos 50 e 60 eram diferentes de hoje em diversos aspectos. Muita coisa mudou. Principalmente a disciplina em sala de aula. Isso não significa que só existiam anjinhos. Nada disso. A bagunça sempre existiu nas escolas. Mas existiam limites e estes eram respeitados.

No "Grupinho", no "Grupão" ou na "Escola Modelo", os alunos eram mais disciplinados que hoje!

Mas a vida escolar não tinha somente momentos de alegria. Não existia a tal “progressão continuada” e, sendo assim, só passava de ano quem realmente merecia.

Hoje, para maquiar índices estatísticos, as escolas contam com um sistema que aprova qualquer um, criando uma legião de analfabetos funcionais, pessoas que sabem ler, mas não conseguem compreender o que lêem.

Havia também, como hoje, cuidado com a saúde dos estudantes desde o “jardim da infância”, curso primário, ginásio até os últimos anos dos cursos científico, normal ou clássico, o atual ensino médio devidamente separado por áreas do conhecimento. Nessa época quem comandava o setor de saúde em Tatuí era o Dr. Jarbas Veiga de Barros.

Dr. Jarbas foi médico da Santa Casa, da saúde pública, professor no “Barão de Suruí”, vereador e presidente da Câmara Municipal. Além disso, era o terror da criançada. O homem era bravo, muito bravo e tinha lá o seu método de examinar a criançada que deixava todos em pânico.

Medo geral da criançada!

- Dr. Jarbas está aqui! – pronto, era o que bastava. Com essa frase a criançada começava a chorar, uns ficavam com “dor de barriga” e queriam ir embora, outros se escondiam em qualquer canto.

Mas não adiantava. Logo estavam todos em fila e o Dr. Jarbas, com o cabo de uma colher esterilizada em um copo com álcool, examinava todo mundo. Em pouco tempo o copo com álcool aumentava de volume, com a saliva e a “baba” da criançada... Éca!

O copo com álcool ia aumentando de volume com a saliva da criançada!

“Ahhh!” – esse era o som mais ouvido. Seguido do “Aiiiiiiiiii!”, que acontecia quanto Dr. Jarbas encontrava um dente podre e arrancava com o cabo da colher. Apesar dos métodos rudimentares, os estudantes de Tatuí eram examinados, encaminhados para tratamento e curados, quando necessário.

Ele sempre defendia aquilo que acreditava. Como torcedor fanático do time de futebol do XI de Agosto, bicampeão amador na década de 50, Dr. Jarbas vestia-se de vermelho, para demonstrar sua predileção pelo time da “égua vermelha”. Na política, sua firmeza de posição lhe valeu uma agressão que se comenta até hoje...

Mas, além de médico e torcedor do XI de Agosto, ele era um exímio dançarino de tango. Eu tive o prazer de constatar isso. Em uma noite, eu estava no Alvorada Club, pouco tempo depois de sua inauguração. Aquela noite não tinha nada de especial.

Mas o inesperado aconteceu. Em certo momento apareceu Dr. Jarbas, trajando um elegante smoking preto, acompanhado de sua esposa Carlota, que vestia um estonteante vestido vermelho.

Dr. Jarbas e Carlota eram exímios dançarinos de tango.

Esse vestido tinha um corte lateral, que permitia maior facilidade de movimentos à dançarina, ao mesmo tempo em que deixava à mostra parte de suas pernas, devidamente cobertas por meias pretas.

Trouxeram um LP com alguns tangos. Em pouco tempo a vitrola enchia o ambiente com a voz de Gardel. As pessoas que lá estavam abriram um espaço para o casal fazer suas coreografias e, em silêncio, admiravam o casal de dançarinos.

Dr. Jarbas e Carlota dançando tango. Uma cena inesquecível.

Mais uma vez eu fiquei de boca aberta por causa do Dr. Jarbas, mas desta vez o motivo foi bastante diferente. Não só eu, pois o casal dançou durante alguns minutos, deixando calados e boquiabertos todos que ali estavam. Ninguém dançava tango como eles. Perfeitos!

Último tango em Tatuí. Quem assistiu nunca esquecerá!

Infelizmente, pouco tempo depois, Dr. Jarbas faleceu. Muitos outros médicos surgiram na cidade. Poucas pessoas ainda torcem pelo XI de Agosto. Ninguém dançou como este último tango em Tatuí.

Domingo, Junho 24, 2007

68) As breganhas do Ernestino

O negócio do meu avô Ernestino era breganhar. “Breganha” – designação popular que deriva do vocábulo português “barganha”, significando troca, permutação... Claro que em Tatuí o idioma pátrio tem algumas particularidades que devem ter assustado o professor Napoleão (Napoleão Mendes de Almeida, que escreveu o Dicionário de Questões Vernáculas e tinha uma coluna no Estadão, sobre as tais questões).

Mas era assim que Ernestino falava quando ia “negociar” (entenda-se trocar coisas). Ele sempre tinha uma bicicleta ou uma máquina de costura pra trocar por qualquer outro objeto, desde que o “freguês” voltasse alguma importância em dinheiro. Sem “vórta”, sem negócio.

Minha avó não tinha sossego. Queria costurar, mas vovô já tinha 'breganhado' a máquina de costura por uma bicicleta Phillips enferrujada, um carrinho de pedreiro, um pilão e mais uma "vórta"!!!

As transações comerciais do Ernestino podem até parecer um contra-senso para alguém não-iniciado nas artes da breganha. Para quem é do ramo isso é coisa comum. Trocar, por exemplo, uma Leonette sem motor por uma máquina de costura e uns carretéis de linha é algo absurdo?

Leonette era o sonho de consumo da molecada da década de 1960!!!

E um tratorzinho de horta, daqueles que tinham uma alavanca no lugar da direção para ser trocado por um casebre na vila São Cristóvão, cujo acesso só era possível por meio de uma pinguela? Adquiriu o trator em troca de uma carroça sem cavalo.

A coisa era sempre assim. Em sua garagem sempre tinha uma bicicleta “reformada” com tinta prateada no guidão e nos aros. E uma plaquinha: Vende-se.

Um dia ele estava com quatro carros no quintal de sua casa (isto foi em 1979): um Fusca 1200 verde com assoalho esburacado, um Opala 69, 4 portas, com a embreagem estragada, um DKW sedan sem partida e um Corcel 68 com a lataria esburacada. A respeito desse carro já contei em um caso anterior. Meu avô consertou os buracos da lataria do Corcel com papelão e massa plástica. Estes carros eram para negociar. Além destes tinha um Fusca 1300 de seu uso particular. Esse não vendia.

Em 1962 comprou um Renault Dauphine novo. Ficou com o carro uns 15 anos. Quando foi vender o carro, estava tão usado que não tinha mais velocímetro... usava um calendário!! kkk!! Era um carro preto, muito bonito enquanto novo. Ernestino judiava do carro. Carregava um pouco de tudo. Dentro, fora... chegava a ficar amarrado dentro do carro quando carregava vigas e caibros para uma construção que fez.

Mas quando resolveu vender, quis caprichar no visual do carro. Para deixar brilhando, depois de lavar passou uma mão de óleo Singer. Brilhou uns 30 minutos, até ficar coberto do pó que grudava no óleo.

Ernestino deixou o Dauphine brilhando com Óleo Singer... mas uns minutos depois estava totalmente empoeirado!

Perguntei como ele fazia tantas trocas. Se ele ganhava ou se perdia. Claro que ganhava, apesar de, em uma ocasião, ter comprado um canário de um cigano que “descorou” na primeira chuva. Era um passarinho qualquer.

Contou então que certo dia fez um negócio com o seu Isaac, um judeu que tinha uma loja onde é hoje o Unibanco. Saiu de lá com um rádio antigo.

O rádio do judeu só "pegava o estrangeiro"!

- Era um rádio daqueles estrangeiros. Só pegava o estrangeiro também! – contou.

- O danado rádio só fazia fuiimmm giiiiiaaaammmmm zimmmm... e pegava a BBC, a Voice of America, a Rádio de Moscou... mas do Brasil nem a ZYL-5, a Rádio Difusora de Tatuí! – rematou.

Um rádio antigo por uma sanfona velha... bela troca

Depois de oferecer para algumas pessoas, encontrou alguém que trocou o rádio velho por uma sanfona. Essa sanfona ele ofereceu para mim e para o Marquinhos Fiúza (Birdinho):

- Vocês compram a sanfona e montam uma orquestra pra tocar em bailes! – argumentou.

Uma "orquestra" comigo e o Marquinhos, pra tocar em bailes... pior que essa só o Sol-Fá-Seis!

Mas logo achou alguém que se interessava na sanfona. Desta vez a troca era por um Renault Gordini (40 HP de emoção!). Conversaram e acertaram o negócio. Foram para Porangaba, em um sítio onde estava o tal Gordini.

- A mulher do dono do Gordini já foi com a sanfona no colo! – disse Ernestino.

O Gordini de Porangaba tinha um 'probleminha': seu câmbio não tinha marcha ré!

- Só estranhei uma coisa! - disse vovô. - Quando foram pegar o carro para trazer até Tatuí, em vez de manobrar logo ali na frente, o motorista deu uma volta longa e virou bem adiante! – Pois não é que faltava a marcha ré?!?! Só vi isso já em Tatuí, quando fui guardar o carro em casa!

Teve de mandar consertar o câmbio do Gordini. Mesmo assim, depois de pouco tempo vendeu o carro. Não foi troca, foi venda. O comprador deu uma entrada que praticamente pagou o custo do carro e ainda 24 Notas Promissórias que equivaliam, cada uma delas, ao valor do rádio do Isaac, ponto inicial dessa breganha. Ah! Tenho que destacar: Não interessava o objeto da troca, mas sim o dinheiro da "vórta"!!! Todas as breganhas tinha de ter a tal "vórta" em dinheiro!

Quinta-feira, Junho 21, 2007

67) Voando em alto estilo

Algumas pessoas têm medo de voar, incluindo eu mesmo. Realmente há certo grau de perigo. Não é para menos, pois tudo que sobe, desce. O problema está na maneira de descer!

O Tatit (quem se lembra dele? o Santana!), apesar de não admitir, tem lá seus medos de voar. Tem medo, mas se arrisca. Entretanto, para conseguir entrar no avião ele usa uma fórmula especial, cuja composição utiliza um remédio infalível para o medo: o álcool. Com isto, dependendo da dose, um camundongo enfrenta um leão!

Um dia, ele foi visitar seu irmão em Brasília (outro Tatit, claro). A viagem de ida ocorreu sem transtornos. Na verdade nem se lembra dela. Talvez tenha feito toda a viagem um tanto “amortecido”. O problema foi o retorno. O receio que tinha em voar, com a lembrança de alguns sacolejos na viagem a Brasília, foi aumentando, conforme o horário do embarque se aproximava.

De receoso, passou para amedrontado, de amedrontado para aterrorizado, de aterrorizado para horrorizado... Já estava trocando sua passagem da Varig por uma do Rápido Federal. Ia voltar de ônibus.

Mas, antes de sair da casa de seu irmão, começou a tomar umas e outras. Beberam o dia todo. Por volta das 6 da tarde foram ao aeroporto, pois o vôo sairia às 7. Aquele medo que invadia o coração do Tatit não mais existia. Havia bebido tanto que, se fosse o caso, voaria montado em um dragão. Cavalgaria até o coisa-ruim (ou cuzaruim, como se fala em Tatuí).

Aconteceu, no entanto, atraso no vôo que traria o Tatit de volta a São Paulo. Atrasos em vôos não é coisa recente. Este caso ocorreu há mais de 10 anos e o problema já existia. Como seu irmão não sabia do atraso, ficou sozinho no aeroporto. Foi ao restaurante e pediu uma porção de não-se-lembra-do-quê e um aperitivo. E mais cerveja. Ele precisava daquilo, pois era seu remédio contra o medo. Junto com a cerveja, tomava quebra-gelos de cachaça. E o vôo? Atrasado! As horas foram passando: 7 horas, 8 horas, 9 horas, 10 horas, 11 horas...

Durante a espera no aeroporto Tatit "bodeou"!

Logo depois das 11 da noite, escutou chamarem os passageiros (no sistema de alto-falantes do aeroporto). Levantou-se e caiu. As pernas estavam bambas. Com um pouco de esforço, andou até o local do check-in e embarque, mas não viu a fila. Não via coisa alguma com clareza e não conseguia ficar em pé. Para não cair novamente, foi sentar-se em uma cadeira que conseguiu enxergar por ali. Só que era uma cadeira de rodas. Sentou e bodeou. Como estava com a passagem na mão, um funcionário da Varig começou a empurrar a cadeira e levou direto ao avião.

Colocaram o “deficiente” sentado na primeira poltrona e perguntaram se ele desejava algo mais. Pediu mais uma cerveja, claro.

Sentado na primeira fila da primeira classe e tomando cerveja!

Que medo, o que... nem viu o avião levantar vôo e já estava dormindo.

Acordou em São Paulo. Quando se prepara para levantar da poltrona, ainda sob efeito das cervejas e dos quebra-gelos, fez alguns movimentos para sair. Logo surgiu um funcionário da Varig, com outra cadeira de rodas e, junto com uma aeromoça, desceram o Tatit do avião, levando até o saguão de desembarque.

Veículo de transporte do Tatit

Serviço de primeira! Perguntaram onde ele desejava ir. Conduziram até o serviço executivo de ônibus e de lá foi até a Praça da Republica. Lá havia uma outra cadeira de rodas esperando por ele. Desta vez ele só agradeceu e foi tomar um táxi. Não agüentava mais passear de cadeiras de rodas.

Quando estava no táxi, não havia passado ainda o efeito da bebida, mas contou ao motorista tudo que ocorreu. O cara ficou rindo do acontecido e bobeou, batendo o carro. Foram parar no 4º DP. O delegado do distrito estava uma fera, pois havia sumido uma arma de sua mesa. Deixou o Tatit, que ainda estava visivelmente atordoado, de molho na carceragem. Saiu pela manhã, só que desta vez não recebeu serviço de primeira.

Só para situar a cara de pau do Tatit, um sábado de 1976 foi tomar uma sauna no Alvorada Club. Mas não ficou na saúna, passou a tomar isto e tomar aquilo, até ficar muito louco.

Tatit saiu caminhando pelado pelas ruas da cidade!

Na saída, com o pensamento dando um looping atrás do outro, resolveu andar nu pela cidade. Desceu pelado a Rua Santa Cruz até o Lavapés, caminhando normalmente. Claro que as pessoas que viram ainda não esqueceram da cena. Não foi preso pois o Marcelo Peixoto o acompanhou em seu Maverick, carregando suas roupas. Vestiu-se dentro do carro e deixou o falatório correr um tempão. Algumas senhoras da cidade ainda não saem sozinhas nas ruas, devido à lembrança das cenas que assistiram!!! ARRE!

Quarta-feira, Maio 30, 2007

66) A igreja do evangelho altissonante do Nhô Frásio

Dissidência em igreja não é novidade. A Reforma de Lutero consistiu, basicamente, em uma desavença com Roma, gerando protestos contra determinados pontos discordantes. Nasceu então um novo ramo do Cristianismo: o Protestantismo. Mas a receita para criar novos caminhos estava pronta. De desavença em desavença, cizânia em cizânia, as igrejas protestantes foram multiplicando-se em proporções extraordinárias, com denominações das mais criativas possíveis.

Em Tatuí também acontecem desarmonias entre os membros das igrejas. Eufrásio, um pastor de uma igreja evangélica tradicional na cidade, teve lá suas desavenças com seu pastor presidente e criou uma nova igreja, abandonando as doutrinas que não concordava. Não me lembro do nome da igreja do Nhô Frásio, mas era alguma coisa que contava que aquela era a verdadeira igreja e não as outras.

A igreja foi instalada em um casebre, ao lado do ribeirão

Fundou a nova igreja ao lado do ribeirão que atravessa a cidade, logo abaixo da antiga Usina Vigor. Lá embaixo, na beira do ribeirão, em uma região com poucos moradores, uma ruazinha sem saída, a igrejinha tava arrumada para receber os fiéis e para vencer a luta entre o Bem e o Mal. O diabo haveria de passar maus bocados com o Nhô Frásio, como era conhecido na cidade.

O diabo não tinha vez com o Nhô Frásio

A localização da igreja do pastor Eufrásio não era das mais privilegiadas, apesar da possibilidade de batizar os novos fiéis no ribeirão, pois nessa ocasião a água, nessa região, não era tão poluída quanto hoje. Para compensar a má localização, Nhô Frásio arrumou uns alto-falantes tipo corneta, muito possantes, que colocou sobre o telhado do casebre onde funcionava a igreja.

Com aquelas "cornetas" Nhô Frásio conseguia ser ouvido em grande parte da cidade

Investiu suas economias em uma aparelhagem que amplificava sua pregação, do púlpito para as ruas da cidade. E tome barulho. Nhô Frásio não sabia fazer uma pregação sem gritar. Aos berros, expulsava satanás dali. Da igreja e das vizinhanças, porque a barulheira produzida pelo Nhô Frásio era ensurdecedora. Não sei se o diabo fugia do sentido da pregação ou do palavreado que mais parecia uma violência ao bom português.

Ninguém conseguia dormir quando Nhô Frásio pregava!

Além disto, os fiéis freqüentadores da igreja, incentivados pelo pastor, gritavam ainda mais, cujo som era também captado por outro microfone estrategicamente colocado próximo aos bancos da igreja. Arre!

Uma questão geológica fazia com que o ruído produzido na pequena igreja do pastor Eufrásio alcançasse distâncias inesperadas. O ribeirão que atravessa a cidade de Tatuí fica no fundo de um pequeno vale. O centro da cidade em sua margem direita (à jusante) e bairros como vila São Paulo, vila Esperança, São Cristóvão e Morro Grande ficam em sua margem esquerda. É, na verdade, um pequeno cânion.

Com isto, o berreiro que Nhô Frásio fazia lá pelas bandas da Usina Vigor, amplificado pelos alto-falantes de corneta e canalizados pelo cânion formado por esse vale, ajudado pelo vento, levava a pregação até as proximidades da ponte do Marapé.

Para piorar a situação, quando vai chover a pressão atmosférica muda e o som se propaga com mais facilidade, alcançando distâncias ainda maiores. Conforme a noite, a barulheira da igreja do Nhô Frásio atingia até a vila Dr. Laurindo.

O pastor Eufrásio não temia nada. Achava que com seus berros estava expulsando satanás e divulgando sua mensagem para as vizinhanças. Provavelmente nem o diabo agüentava a barulheira. Nhô Frásio não perdoava. A gritaria era imensa.

Para o diabo era fácil fugir daquele barulhão. Era só voltar ao inferno. Mas para os moradores da região a vida ficou difícil...

Só que isso não aborrecia apenas o inimigo, mas também todos os moradores de uma vasta região. Para o diabo era fácil: dava um mergulho e voltava ao inferno. Mas para os pobres tatuianos mortais que tinham de escutar aquilo todas as noites a coisa ficou complicada.

Ora Nhô Frásio expulsava satanás, ora estuprava o português com seu vocabulário...

Nhô Frásio queria ser OUVIDO por todos!

Nessa guerra entre o Bem e o Mal, durante algum tempo alguns moradores ficaram em dúvidas a respeito de quem era o Bem e quem era o Mal... e tome gritaria. Psiu! Silêncio!!! E a igreja? Fechou logo, para alívio dos moradores de Tatuí!

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

65) Caminhada forçada na Itália

Não, não se trata de algum caso referente aos pracinhas da FEB que na Segunda Guerra Mundial lutaram na Itália. É mais importante que isso: este caso trata de tatuianos assistindo a Copa do Mundo de Futebol de 1990!!!

Nessa copa foram muitos os tatuianos que viajaram até a Itália. Foi uma verdadeira multidão, incluindo entre eles o Zé Erasmo e o Toninho Gallo.

Estádio Delle Alpi, onde aconteceu o jogo Brasil x Suécia

No primeiro jogo foram até o Estádio Delle Alpi, em Turim, onde o Brasil enfrentou a Suécia. Beleza, Brasil 2 x Suécia 1!!!

Para ir do hotel até o estádio foram de ônibus. Animação total! Depois de encerrada a partida, mais animados ainda, foram até onde estavam os ônibus, mas cadê? Nada de ônibus... talvez tenham demorado um pouco mais... não sabiam a razão, mas os ônibus não estavam ali, como eles todos imaginavam.

Como fazer para voltar ao hotel? Alguém “arranhou” o italiano e perguntou como voltar ao centro de Turim. Não era coisa difícil, pois perto dali havia uma estação de trem. Era só tomar um trem que em pouco tempo estariam no local desejado.

Informaram-se dos detalhes: eram 15 estações dali até o centro. Contaram até o nome das estações. Mas como se lembrar dos nomes? Pouco compreenderam... o homem que passou as informações falou rapidamente... ninguém entendia italiano!!!

- Ah, se fosse inglês eu entenderia tudo” – afirmou Zé Erasmo. Mas não era. Assim mesmo acharam que haviam compreendido o suficiente.

Foram todos até a estação, esperar o trem. Como já era tarde, mais ou menos 1 hora da manhã, aquele seria o último trem daquela noite.

As estações italianas eram bem cuidadas

A espera foi curta. Logo chegou o trem. Um belo trem, diga-se de passagem. Nada a ver com os trens brasileiros.

A tatuianada entrou correndo no trem. Eram mais de 20 naquele momento. Faziam um barulho razoável. Pudera, o Brasil havia vencido a Suécia!!!

Zé Erasmo e Toninho Gallo entraram no último vagão. O trem partiu. Em cada estação, parava cerca de 1 minuto e partia novamente. Todos estavam atentos... passa uma, passa duas, passa três....

De repente, ao parar em uma estação, o Zé Erasmo deu um grito:

- É aqui, negada!

Desceram imediatamente alguns tatuianos.

O trem partiu novamente e eles ficaram na estação, olhando...

O Zé e o Toninho foram até o vagão seguinte. Quando o trem chegou à próxima estação, gritaram novamente:

- É aqui, negada!

Aquele corre-corre e saíram mais uns tatuianos, que ficaram nessa outra estação.

Rindo, os dois passaram para o primeiro vagão e quando o trem parou na estação seguinte, mais uma vez gritaram:

- É aqui, negada!!!

Desceram correndo os tatuianos que restavam no trem.

Não havia mais trem naquela noite. Os dois riram a valer e em poucos minutos estavam na estação central. Desceram e foram para o hotel, onde chegaram perto das 1h30 da manhã.

Como não sabiam o caminho, todos vieram seguindo a estrada de ferro!!

Bem, os outros tiveram que vir a pé. Os primeiros que apareceram no hotel, suados e cansados, só chegaram perto das 5 horas. E a cada momento aparecia um ou outro. O último deles chegou perto das 7 horas. Os dois, Zé Erasmo e Toninho Gallo, ficaram bem quietos... não contaram a ninguém que haviam feito de propósito!!!

Enfim, foi só canseira mesmo! Um bando de tatuianos não poderia ter passado pela Itália sem uma nota fora qualquer. KKK

Sábado, Janeiro 27, 2007

64) Jandira e o brejo

Estava chovendinho... Só garoandinho, mas como o lugar estava lotado, ficamos conversandinho na porta.

Esse diálogo só poderia ter acontecido em Tatuí. O vocabulário tatuiano tem algumas particularidades: o diminutivo é uma constante em conversas informais. Quando alguém chega pela primeira vez na cidade pode precisar de um intérprete.

Um dia perguntei a uma pessoa a respeito de seu filho, que estava doente. A resposta?

- Tadinho, ficou na Santa Casa, internadinho!

Às vezes me pergunto como seria o caso se tivesse ficado internadão!!!

E tem um verbo criado em Tatuí: o verbo “chavear”, na realidade uma movimentação do substantivo “chave”: - “Chaveie a porta!” ou o primor: - “Chaveie a chaveadura!”

Mas o caso não é sobre o vocabulário tatuiano. Isto foi lembrado porque a personagem central do caso que irei contar, quando veio morar em Tatuí, mais de 40 anos atrás, quase precisou de intérprete para compreender as expressões comuns da cidade.

- Óóó, Iara! A galanteza da sua filha já ta dormindinho?

Dona Iara veio morar com seu esposo, Amauri, na Fazenda Colina. Logo ali depois do bairro do Isolamento. O lugar era lindo, muito bem organizado e cuidado com carinho.

Havia uma bela piscina de água corrente, alimentada por um ribeirão que nascia ali mesmo na fazenda. Nessa ocasião, piscina era uma raridade. Essa era muito boa, com uns 15 metros de comprimento, uns 5 de largura e 3 metros de profundidade. Maravilhosa!

Claro que sempre apareciam visitas tentando aproveitar a piscina. Isso, para dona Iara, era sempre um prazer, desde que fossem seus convidados. Detestava penetras!

Certo dia, quando se preparava para entrar na piscina com sua filha, surgiu um ônibus lotado. Desceu um pessoal ruidoso que foi logo se encaminhado para a piscina. Era um time de futebol feminino – coisa rara na ocasião -, que, depois de jogar uma partida, estava ali para aproveitar a piscina. O time era acompanhado por namorados, fãs, curiosos, etc. Todos interessados na piscina.


Sem qualquer aviso, apareceu um ônibus cheio de visitas querendo nadar

Claro que dona Iara não quis deixar. Mas as pessoas argumentaram que seu esposo havia autorizado. Enquanto isso alguns já iam pulando na piscina. As jogadoras, suadas, não tomaram banho. Foram pulando direto para a piscina. Em instantes, o ônibus inteiro nadava ali, deixando a água toda encardida.

Aquilo era demais para dona Iara agüentar sem qualquer reação. Chamou o caseiro e foram fechar a alimentação da piscina. Havia uma pequena barragem com a canalização direcionada para a piscina. Com auxílio do caseiro, fechou o registro que mandava água para a piscina.

Sem entrar água, a piscina começou a baixar. O sistema de água corrente precisava de entrada de água, pois a saída era constante. Tinha que ter equilíbrio entre entrada e saída de água para manter a piscina no nível.

Cessando a entrada da água, o nível foi baixando. As “visitas” nadando, quase não perceberam que água baixava. Ou se perceberam, não ligaram.

Dona Iara ficou em sua casa, aguardando os acontecimentos. De repente a gritaria aumentou. Só que agora os gritos eram aterrorizados.

“Que terá acontecido?” – indagou-se preocupada dona Iara. Correu até a piscina, pois temia que alguém tivesse se afogado.

Mas não foi isso.... a água foi baixando com rapidez e só restava um pouco d'água no fundo. O que aconteceu é que, com seus 3 metros de profundidade, era impossível sair da piscina. Algumas das moças gritavam desesperadas.

Pra sair da piscina foi preciso uma escada

Bem, foi preciso arrumar uma escada para que as “visitas” pudessem sair da piscina. Deu certo a estratégia... foram todos embora!

Em outra ocasião, dona Iara estava descansando na casa, quando apareceu o caseiro, nervoso e afobado:

- Cadê o doutor Amauri? A Jandira atolou!!!

- O que aconteceu? – perguntou dona Iara.

- Foi a Jandira que desceu e atolou no brejo. Tá afundando. Preciso do doutor Amauri!

- Meu Deus! Será que a mulher do caseiro caiu???

Iara pegou o telefone e ligou para seu esposo. O caseiro explicou, cada vez mais nervoso, o problema do atolamento da Jandira.

Em poucos minutos o Amauri chegou e foi com o caseiro lá no lugar indicado por ele.

Demoraram mais de duas horas pra retornar. Dona Iara nem sabia mais o que pensar... achava que a mulher havia morrido.

- Devem estar chamando a polícia” – considerou.

Depois de uma longa espera, surgiu o Amauri, todo sujo de barro.

- Que aconteceu com a mulher? – perguntou preocupadíssima, dona Iara.

- Que mulher? – estranhou Amauri.

- A que atolou. A Jandira! – respondeu Iara.

- Que Jandira o quê! Quem atolou foi o trator John Deere que entrou no brejo!!!


Trator John Deere


Que confusão! O nome em inglês "John Deere" com o sotaque tatuiano do caseiro transformou-se em Jandira... e foi para o brejo! Isso, claro, só acontece em Tatuí.

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

63) Curas espirituais em Tatuí

Este fato ocorreu por volta de 1976. Havia nessa ocasião uma mulher em Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul, muito famosa pelas curas espirituais que realizava. Ela fazia suas rezas e, com sua boca, literalmente “chupava” fora a doença das pessoas.
Uma pessoa com um órgão doente ia até a mulher para se curar. Ela fazia suas rezas e, encostando sua boca sobre a pele do doente, nas proximidades do órgão com problemas, chupava fora o mal. Depois disso, cuspia o material que dessa maneira havia retirado das pessoas.

As notícias de suas curas ultrapassaram fronteiras. De todo o país iam pessoas buscar a cura para suas doenças com a tal mulher. De Tatuí, nessa ocasião, partiam ônibus lotados de pessoas que iam em busca da cura para seus males. Os comentários na cidade, como em todo o país, eram sempre positivos. Parecia que a mulher tinha mesmo dom de curar pessoas.

Algumas pessoas, então, resolveram buscar a mulher para que ela atendesse aos milhares de doentes tatuianos. Conseguiram uma casa vazia na rua Prudente de Morais, bem nas proximidades da Praça da Matriz.

Sucesso total!

Apareceram pessoas de todos os lugares. De Tatuí e das cidades vizinhas. Todos buscando solução para seus problemas.

Como o número de pessoas era infinitamente superior a qualquer previsão, surgiram filas enormes que davam voltas no quarteirão. Para reduzir o estresse, foram distribuídas senhas para o atendimento. A mulher ia ficar apenas 2 ou 3 dias, mas teve de estender sua passagem por Tatuí para mais de uma semana. Todo mundo apareceu por lá.

A fila estava enorme

Para agilizar o atendimento, a mulher passou a receber, de uma só vez, mais de uma pessoa, quando eram amigos ou familiares. Por exemplo, quando vinha uma família, todos eram atendidos de uma só vez, reduzindo o tempo de espera na fila.

Foi assim que dois amigos, Juraci e Jaime, foram atendidos juntos, de uma só vez. Juraci, quando criança, teve paralisia infantil numa perna, ficando com seqüelas por toda sua vida. Quando jovem precisou da ajuda de muletas para andar. Com o tempo dispensou esse equipamento, mas arrasta um pouco essa perna ao andar. Isso impediu que jogasse futebol, mas como tinha uma bela voz, tornou-se locutor da estação tatuiana de rádio, a ZYL-5, Rádio Difusora de Tatuí. Se não jogava futebol, pelo menos irradiava jogos. Irradiava e dava palpites. O homem entendia de futebol.

Bem, no caso do Jaime, apesar de ter pernas saudáveis, sempre foi um “perna-de-pau” quando o assunto era futebol. Nunca foi sua praia. Mas Jaime tem um problema desde a infância em suas cordas vocais. Fez dezenas de cirurgias, sem obter a cura total e efetiva. Com isto, sempre teve que se esforçar para falar. E sua voz é sempre um tanto afônica, rouca. Nada disso impediu que se tornasse advogado, profissão que exerce há mais de 25 anos.

Ambos, Juracy e Jaime, podem ser citados como exemplo de perseverança.

Pois bem, exatamente pouco antes da curandeira vir a Tatuí, o Juraci sofreu um pequeno acidente que machucou a perna sã, sendo necessário recorrer novamente às muletas. Convidou o Jaime para irem tentar a cura com a tão famosa mulher. Jaime, com esperança de escapar de mais uma cirurgia, topou imediatamente.

Foram os dois de uma só vez. Depois de algum tempo na fila, entraram juntos para ser atendidos. Os procedimentos eram semelhantes para todos.

O ambiente ficou avermelhado

A sala onde a mulher atendia estava com as janelas fechadas, na penumbra. Além da escuridão, foram estendidos alguns tapetes e forradas as paredes com panos vermelhos, criando um ambiente um tanto assustador. Havia estatuas de santos católicos e de entidades de religiões afro-brasileiras.

Assim que entraram, a curandeira perguntou seus nomes e o motivo que os levou até lá. Cada um deu a devida explicação.

Então, a mulher proferiu suas rezas e passou à benzedura, colocando sua boca junto ao pescoço do Jaime. Em segundos chupou alguma coisa e cuspiu. Era um material de aspectos horroroso, que disseram se tratava de carne esponjosa que estava nas cordas vocais dele.

Em seguida, com auxilio de algumas plantas, fez alguns gestos sobre o Juraci, dando seus “passes espirituais”, efetuando os benzimentos necessários para a cura.

Depois disso, a mulher dirigiu-se ao altar onde estavam as estatuas e passou a rezar com mais intensidade, ficando de costas para os dois amigos.

Logo disse em voz alta ao Juraci:



- Seu Juraci, jogue fora suas muletas! – ordenou.

Ouviu-se um ruído. BLAM!

- Seu Jaime, fale! - determinou.

Escutou-se o pigarrear típico do Jaime que, afônico como sempre, disse:

- Ãrrâ! Ééé... o Juraci caiu!

Apesar do sucesso que fez a tal curandeira em Tatuí, não sei se alguém foi curado, mas isto é certo: nem o Juraci e nem o Jaime receberam a esperada cura!

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

62) O barbeiro da Elite Tatuiana

João José foi um barbeiro refinado. Sua barbearia ficava no Clube Recreativo e dava a impressão que sempre estava fechada. Mas não estava. Era sua estratégia, pois João José fechava a porta da barbearia para não ter de atender qualquer um.

João José só cortava o cabelo de doutores.

A barbearia estava aberta 24 horas por dia, mas apenas para o Dr. Adriano, Dr. Simeão, Dr. Faria e todos os outros antigos doutores de Tatuí na ocasião... Ele não fazia a barba de qualquer pessoa. Era realmente um barbeiro de elite.

Depois que acabou o Clube Recreativo, João José mudou sua barbearia ali na Rua Santa Cruz, em frente ao Bar do Zeca (hoje Açougue Pops).

Mudou de lugar, mas não mudou de convicção.

Não trabalhava para qualquer pessoa e mantinha-se solteiro, invicto.

Sua casa, no entanto, costumava ser local de reuniões, almoços e jantares. Neste caso, não precisava ser necessariamente uma reunião de doutores - imagine só se algum deles iria naquela farra -, mas eram os seus amigos de boemia que sempre estavam por lá.

Um dia apareceram o Zinho e o Geladeira, dois de seus amigos mais chegados, com um belo cabrito:

- Achamos esse cabrito solto na rua e trouxemos pra assar! – disse o Zinho.

João José na mesma hora começou a censurar:



- Mas o que é isso! – disse João com sua fala mansa. – Como é que vocês pegaram o cabritinho... E se for de uma criancinha? Ela pode estar chorando!!! – continuou.

- Isso não é coisa que se faça! - completou.

Poucas coisas entusiasmavam tanto João José quanto um cabrito assado

A argumentação do João José acabou convencendo ao Zinho e o Geladeira, que resolveram levar de volta o cabrito ao local onde o encontraram. Colocaram o cabrito no carro e já estavam quase saindo.

O João José, apesar da argumentação, adorava um cabrito assado. Quando ele viu que eles estavam dispostos a devolver o cabrito, disse:

- Espera um pouco! Que passe desta vez por malvadeza! Vamos comer o cabrito! – determinou João José, arrancando risos de todos.

Ele era solteirão invicto quanto ao casamento, mas vivia com enrolação do tipo “tico-tico no fubá”!

Certa vez, arrumou uma jovem chamada Jane para morar com ele. Ela ficou lá algum tempo... sei lá, talvez mais de um ano. Pouco tempo depois que romperam, ela foi ao médico, pois não se sentia bem.

O médico pediu uma série de exames e concluiu que ela estava com a doença de Chagas.

- A senhora tem uma doença infecciosa causada por um protozoário parasita chamado Trypanosoma cruzi!

-Ãn??? Tripa-no-quê? – Jane perguntou assustada ao médico.

O médico, para simplificar, disse que ela estava com a Doença de Chagas.

- Ai, doutor, mas como eu fui ficar com essa doença? – perguntou Jane.

A doença de Chagas é transmitida pelo barbeiro

O médico, então, explicou a forma de transmissão da doença de maneira simplificada, pois percebeu que ela não ia entender uma linguagem mais técnica:

- Acontece que a senhora foi contaminada por um barbeiro! – disse o médico.

Pronto. Ela começou a pensar, considerar, remoer e nem prestou atenção ao restante das explicações. Logo que saiu do médico foi até a barbearia do João José e armou um barraco até hoje lembrado pelas pessoas que assistiram:

- Seu sem vergonha! Tava doente e não me avisou!!! – gritou a Jane.

João José não estava entendendo nada daquilo e quis argumentar, dizendo que não se encontrava doente, mas a mulher não parava de gritar:

- Não adianta negar! É uma doença mortal e o médico disse que eu fui contaminada pelo barbeiro! Claro que ele sabe quem é você. Você só atende doutor!!! – continuou a xingar.

Isso só acontece em Tatuí, é claro!

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

61) Papai Noel em Tatuí

É quase Natal. O centro da cidade está movimentado o dia todo. Lojas cheias de clientes e de “papais noéis”... No ano passado, lá no Coop, vi um "papai noel" tão magro que fiquei com dó e lhe paguei uma coxinha...

Os comerciantes adoram esta época! É nesta ocasião que muita gente compra coisas que foi protelando o ano todo. Em dezembro o 13º salário (mesmo que só pela metade neste ano) dá uma reforçada nas finanças e vamos gastar!!!

Para as crianças, então, estes são uns dias mágicos... é a ocasião de receber presentes trazidos pelo Papai Noel. Muita coisa tem mudado nos últimos anos, mas essa tradição tem sido perpetuada, menos pelo seu sentido religioso e mais pelo comercial.

Os presentes eram trazidos por Noel

Nos anos 50 e 60 já era mais ou menos assim. Lembro-me dos natais de minha infância. Parecia que a atmosfera mudava. Havia algo diferente no ar. O centro de encontros em Tatuí era a Praça da Matriz. Não tão movimentada quanto hoje, claro.

As lojas eram poucas, hoje há brinquedos em qualquer lugar e as crianças ganham brinquedos em qualquer ocasião. Antigamente era apenas no Natal e no aniversário... e olha lá!!!

Naquele tempo já existia a Casa dos Presentes. Era pequena ainda, mas era a referência do Natal e, por isso, enchia-se de brinquedos. Nem cabia tudo por lá... o Jonas e o seu Mário, no final dos anos 50, chegaram a alugar outros pontos para colocar os brinquedos. Eu achava que os dois irmãos eram uma espécie de ajudantes do bom velhinho... eram irmãos, mas diferentes tipos de personalidade: seu Mário era mais sério, o Jonas brincalhão.

Jingle Bells!

Pena que não consigo descrever a música que tocava lá durante todo o mês de dezembro: Tlim-tlim-tlim... tlim-tlim-tlim... tlim-tlim-tlim-tlim-tlim!! Tlim-tlim-tlim... tlim-tlim-tlim... tlim-tlim-tlim-tlim-tlim... Jingle bells, Jingle bells... Jingle all the way!!!! Esse som entrava no ar e mudava a atmosfera: Tudo girava em torno do Natal!

No mês do Natal, enquanto seu Mário cuidava da administração, o Jonas fazia a criançada enlouquecer os pais pedindo presentes. Sei disso porque quando eu era criança escolhi um brinquedo magnífico na Casa dos Presentes, mas meu pai achou que era muito caro.

O Jonas na mesma hora disse que eu poderia escolher qualquer coisa:

- Pode escolher o que quiser, o Papai Noel é rico! – disse o Jonas.

Mas mesmo assim o meu pai não deixava escolher aquele tal brinquedo. Mas que coisa! Eu não entendia aquilo. Se o Papai Noel vai me dar o brinquedo, porque o meu pai não me deixava escolher o que queria?

Há uma curiosidade... enquanto Papai Noel escrevia com caneta verde, o Jonas só escreve com tinta verde!

E quem era a maior autoridade em Natal aqui em Tatuí? O próprio Jonas! Eu tinha uma consideração enorme para com ele. Aliás, não apenas eu, mas toda criançada de Tatuí. Pudera, ele trouxe pessoalmente o Papai Noel em Tatuí. O verdadeiro! O Jonas mandou trazer do Pólo Norte e desfilou em seu carro conversível (um Chevrolet, se não me engano) levando nada menos que o verdadeiro Noel no banco traseiro!

- “Puxa vida!” – pensei. - “Que homem importante esse Jonas!!! Amigão do Papai Noel!!”.

Então, se esse homem, tão chegado do Papai Noel, dizia para eu escolher qualquer brinquedo, o meu pai não tinha nada que impedir.

Mas no final das contas, não consegui convencer o meu pai. Só que o Jonas mostrou mais um monte de brinquedos e deu um jeito para eu escolher outras coisas e acabei esquecendo daquele outro.

– “Ele sabe das coisas!” – considerei. – “É amigo do Papai Noel!”.

Acho que a tinta que o Jonas usa só é fabricada no Pólo Norte!

Até hoje o Jonas ajuda o Papai Noel. Só mudou o lado da praça. Acho que ele também aguarda o bom velhinho chegar para trazer um vidro de tinta Parker Quink verde para abastecer a sua Parker 51, a caneta que ele usava para pedir os brinquedos do Natal.

A criançada pode escolher o que quiser, porque o Jonas já disse que o Papai Noel é rico!

Antes de encerrar tenho que lembrar que há um paradoxo no Natal, pois o foco das celebrações foi desviado para o Papai Noel, para a ceia e para os presentes. O personagem principal, Jesus, foi deixado de lado. A data tem sido mais utilizada em um enfoque comercial.

Assim, todos se lembram primeiramente das festas, das comemorações, dos encontros com parentes, amigos, confraternizações com colegas e, se sobrar algum tempinho, dedicam ao homenageado principal.

FELIZ NATAL!
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