domingo, dezembro 20, 2009

81) Rua Augusta, Zero Hora!

A década de 1960 foi muito importante para a humanidade toda, devido aos acontecimentos que mudaram o comportamento da sociedade ocidental. Foi quando surgiram os Beatles e os Rolling Stones e o mundo nunca mais foi o mesmo de antes.

O Brasil não ficou fora desse processo de transformação, tendo como centro a música e outras artes, surge um programa na TV Record denominado "Jovem Guarda", com Roberto e Erasmo Carlos, e inúmeros artistas do cenário artístico nacional.

O visual do Roberto e do Erasmo, nos padrões atuais, é horrível. Mas foi moda!

A influência do movimento da Jovem Guarda, seguindo as tendências provenientes dos cantores estrangeiros, contribuiu para mudar o modo de vestir e o comportamento de uma geração inteira. Todos queriam assumir algo que tivesse ligação com seus ídolos.

A televisão ainda era uma novidade e o papel dessa mídia no comportamento das pessoas ainda não era totalmente conhecido. O país era ainda conduzido pelo rádio. Os jovens passaram a deixar crescer seus cabelos, imitando os Beatles. As moças encurtaram as saias, usando a invenção de Mary Quant: a minissaia. Logo surgiram os hippies com a ideologia de paz e amor. E muitas modas vieram e passaram...

Em Tatuí a coisa não foi diferente. Apesar de ser uma cidade do interior, os comportamentos começaram a mudar. Por exemplo: quem tinha um Volkswagen não tinha sossego, pois sempre havia alguém disposto a arrancar seu lavador de para-brisas para fazer um anel igual ao do Erasmo Carlos: um anel chamado "brucutu".

Cena do programa Jovem Guarda, da TV Record.

Foi uma verdadeira febre para aprender tocar violão. Todos desejavam tocar e cantar as músicas da Jovem Guarda. Cada qual ajeitava as coisas para ficar em sintonia com seu ídolo. O maior deles foi, claro, Roberto Carlos. Um deixava crescer o cabelo para ficar igual ao Roberto. Outro aprendia a tocar violão para cantar igual ao Roberto.

Havia um rapaz que tentava imitar alguma coisa desse artista, mas seu cabelo, rebelde, não permitia pentear igual ao Roberto. Sua voz, desafinada, não permitia cantar e como não tinha ouvido musical, também não aprendeu a tocar violão. Mas deu um jeito: no footing da Praça da Matriz, andava arrastando uma perna, mancando, para com isso imitar seu ídolo!

Mas isso não foi nada. Em meados da década de 60, o Tita Bastos entrou em um consórcio para adquirir um Volkswagen Sedan (ainda não se chamava Fusca), que era o sonho de consumo de todos nessa ocasião. Quando foi contemplado, recebeu seu automóvel zero quilômetro. Lindo! Fez um tremendo sucesso na cidade. Há que destacar que havia poucos carros na cidade e quem tinha um garantia seu sucesso.

Certo dia, passeando à toa, Tita confessou ao Cabreira, seu amigo, que tinha ainda outro sonho a realizar:

- Eu quero andar a 120 por hora na Rua Augusta!

A Rua Augusta, toda em paralelepípedo. Não era muito fácil andar a 120 por hora aí!

Tita Bastos queria fazer como dizia a letra de uma música que fazia grande sucesso na Jovem Guarda, gravada pelo Ronnie Cord em 1964: "Entrei na Rua Augusta a 120 por hora / Botei a turma toda do passeio pra fora / Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina / Parei a quatro dedos da vitrina..."

- Mas então vamos à São Paulo! - incentivou o Cabreira.

Nesse final de semana foram à São Paulo. Cabreira considerou que era melhor esperar a madrugada, pois em outro horário isso seria impossível. Foram tomar uns drinques no Largo do Arouche. Ficaram lá até meia-noite, quando então foram à Rua Augusta. Ainda tinha movimento, mas estava diminuindo. Naquela noite chovia um pouco e as pessoas foram embora logo.

Assim que diminuiu o movimento, Tita Bastos acelerou seu carro, olhando para o velocímetro. 80, 90, 100, 110... 120 quilômetros por hora. O carrinho parecia voar. Cabreira, fingindo coragem, ao perceber que atingiram os 120 por hora gritou:

- Dê pelo menos 125 por hora, porque 120 até o Roberto Carlos já andou!!!

"Hay, hay, Johnny / Hay, hay, Alfredo / Quem é da nossa gang não tem medo / Hay, hay, Tita / Hay, hay, Cabreira / Quem é da nossa gang não tem medo..."

Depois ainda dizem que os jovens de hoje não tem o juízo no lugar!

quinta-feira, novembro 12, 2009

80) Riscando e rabiscando

Hoje as tatuagens estão na moda. Tatuagem e piercing. Primeiramente o culto ao corpo começou a sobrepujar a cultura da mente, tanto para mulheres quanto para homens. Depois o corpo deixou de ser um templo e começou a ser aviltado: rabiscado e perfurado. Há outras formas de prejudicar o corpo, com o excesso de álcool, com as drogas e também com a utilização de suplementos alimentares de uso veterinário, quando se deseja, quase que milagrosamente, um corpo musculoso.

Antigamente, perfurar o rosto era coisa de índio botocudo. Coisa de selvagens. As tatuagens também eram coisas de selvagens. Coisa de aborígene ou de presidiário. Agora isso tudo é moda.

Índio botocudo retratado por Rugendas

Fico imaginando que a próxima geração de idosos deve ser a mais feia que já existiu na Terra, pois esses rabiscos e furos, feitos em corpos jovens com pele lisa, com o processo natural de envelhecimento vai ficar um horror. Com as rugas e as pelancas, os velhos do futuro vão assustar criancinhas! Tenho ideia disso a partir da observação de alguns casos de pessoas que ainda são jovens, mas que a pele já sofreu alterações. Alguns desses merecem ser contados.

Velha tatuada. Pode ter sido engraçadinha quando era jovem!

Um dia destes vi uma garota vestida daquele jeito que papai não gosta: “menina bonita de perna grossa, vestido curto, papai não gosta”. Ela havia feito duas tatuagens na parte de trás de suas coxas. Eram duas coloridas máscaras astecas. Quem faz tatuagens quer mostrá-las e, por isso, seu vestido era mais curto que o normal.

Acontece que há outro processo bastante natural que as pessoas se esquecem: a possibilidade de engordar. Pois é, a menina em questão havia engordado alguns quilos e, logicamente, a tatuagem acompanhou as mudanças da pele. Enquanto a garota andava, a cada passo que dava as máscaras astecas piscavam os olhos. Um de cada vez.

O Didi Sobral, dentista tatuiano há mais de vinte anos residindo em Portugal, quando vivia aqui no Brasil teve uma namorada “avançadinha”. Ela havia tatuado uma bela iguana, pouco abaixo do umbigo.

No ano passado, Didi esteve por aqui a passeio e visitou todos os amigos que o tempo de sua estada permitiu. Quando passou pela cidade da ex-namorada, foi visitá-la. Ah, antes não tivesse ido. Guardaria lembrança de outros tempos. A mulher engordou e aquela bela iguana transformou-se em um horrível crocodilo!

A bela iguana cresceu junto com a barriga da moça, transformando-se em um horrível crocodilo!

Há coisas ainda piores. As pessoas apaixonam-se e logo vão rabiscando o corpo com o nome da amada ou do amado. Mas paixão é passageira. Amores vêm e vão. Mas o rabisco tatuado permanece. Para remediar a coisa é complicada. Há a possibilidade, em alguns casos, de apagar a tatuagem com o emprego de um aparelho de raio laser.

Mas na maior parte das situações, isso não é possível, tanto devido ao excesso de desenhos e cores, quanto pelo custo desse procedimento. Além de ser extremamente doloroso. Porém, uma das saídas é rabiscar mais uma tatuagem sobre aquela que não se quer mais, “borrando” o texto indesejado.

Aqui mesmo em Tatuí tem um exemplo desse tipo de tatuagem arrependida: Quem se lembra do Augusto Cornoló, vendedor de bilhetes? Homem com um bom humor incomparável. Pois bem, ele, apaixonado, tatuou em seu braço os seguintes dizeres: “Deus, eu e Cacilda”, para louvar seu amor.

Mas o amor da Cacilda pelo Cornoló acabou e romperam. Pouco tempo depois, ela estava envolvida sentimentalmente com um homem chamado Walter. A tatuagem, no entanto, permanecia. Não dava para apagar. Com seu bom humor, Cornoló resolveu a questão. Mandou tatuar um adendo naqueles dizeres, que ficou assim: “Deus, eu, Cacilda e Walter”.

Eis a citada moringa (ou mucura) do Cornoló!

O Augusto Cornoló é mais um que faz falta no cotidiano da cidade, com seu bordão: “não esquente a moringa”, que ele mesmo “traduziu” para o castelhano como “non caliente la mucura”.

domingo, outubro 11, 2009

79) Ouro de enterro

Há muitas histórias a respeito de tesouro enterrado por todo o mundo. Em Tatuí a coisa não poderia ser diferente. Aqui e ali contam casos de fortunas enterradas, geralmente próximas de alguma árvore, que serve para marcar o lugar. O ponto em comum desses casos é a existência de um guardião sinistro: uma alma do outro mundo.

Histórias sobre tesouros guardados por fantasmas são comuns

O guardião é o fantasma do proprietário do tesouro enterrado. Geralmente uma pessoa avarenta e ambiciosa em vida, que passou inúmeras privações só para acumular fortuna. Em sua vida, viu e desejou comida e objetos, mas deixou de tê-los para não gastar e, assim, guardar seu rico dinheirinho. Como não gastou durante sua vida, foi acumulando, acumulando até que, um dia, surgiram temores de ser assaltado e que toda sua fortuna desaparecesse. Que fazer? Esconder, claro! Eis a explicação para esses “enterros”. O Ivan Camargo, em seu livro sobre as assombrações caipiras, fala desse assunto. Eu, particularmente, conheço alguns “caçadores de ouro de enterro” e como o assunto está em voga, conto aqui alguns acontecimentos relativamente recentes.

Um desses caçadores é o Silvio Soldado, policial aposentado que garante ter encontrado fortunas enterradas. Meu amigo Inocencinho, um bravo e valente pedreiro, é outro famoso caçador de enterros. Tem um braço atrofiado de nascença, mas que nunca impediu de trabalhar pesado ou de enfrentar qualquer homem em uma briga. Hoje, mesmo estando bem idoso, não desistiu de encontrar um enterro que lhe assegure alguma fortuna. Durantes anos procurou em diversos lugares. Sempre que teve notícia de um local que alguém diz ser “mal assombrado”, Inocêncio já tentava encontrar uma maneira de ir lá e esburacar os arredores...

Sabendo que no sítio do Hélio “Anacleto” Camargo Barros havia uma paineira com fama de ser mal assombrada, Inocêncio me procurou para que eu intercedesse junto ao proprietário, também meu amigo, para obter autorização para ele buscar o ouro que, garantiu, estava enterrado lá.

- Eu comprei um parêio que acha quarquér metár! – disse-me o Inocêncio, explicando que tinha um equipamento apropriado para identificar metais enterrados.

- E de ‘sombração num tenho medo! Num tenho medo nem de morto e nem de vivo! – valente como é, fez questão de afirmar. Ele queria ir caçar o tesouro enterrado no sítio dos Camargo Barros junto com o Santo Galvão, seu vizinho. Mas se o Inocêncio não temia nem vivos e nem mortos, não era o mesmo caso do Santo. Quando indaguei se ele também ia procurar o enterro, ouvi como resposta:

- Iiih, “capaiz”! – disse o Santo. – Eu é que num vô mexê cum árma d’otro mundo! – completou. E com isto, não foram mesmo. Nem o Inocêncio e nem o Santo. Um por falta de companhia e o outro por medo.

Mas o boato do ouro de enterro naquele local já tinha chegado a outros ouvidos. Muita gente procurava o Anacleto para tentar uma autorização visando encontrar o ouro enterrado. Um belo dia, enjoado de tanta gente abordá-lo com o mesmo assunto, Anacleto resolveu permitir a busca do tal tesouro em sua propriedade. Permitiu que o Francis Pássaro e seu amigo Clovinho Lima desenterrassem o tal tesouro.

Faltou pouco para chegarem na China!

Ah, que ânimo desses caçadores de tesouro! Se todos tivessem a mesma disposição dessa dupla para cavar, o mundo já teria túneis que chegariam até a China! Os dois passaram uma semana em atividade ao redor da tal paineira. Nesses poucos dias fizeram um buraco enorme, circundando a árvore. Movimentaram centenas de metros cúbicos de terra, contando só com pás, picaretas, enxadões e enxadas...

O buraco que cavaram media uns 25 metros de diâmetro por 3 metros de profundidade, o que representa um horror de metros cúbicos de terra remexida, o que dá para encher mais de algumas dezenas caminhões basculantes!!! A terra removida, amontoada na borda do buraco, além da profundidade da escavação, permitiu que trabalhassem a maior parte do tempo na sombra quase que o dia todo. Só por volta do meio dia o sol iluminava o buraco sem fazer sombra.

Os dois caçadores tinham a impressão que iam encontrar muito ouro

Entretanto, apesar da persistência da dupla, não encontraram nem um tostão furado. Nada de ouro, prata, pedras preciosas ou qualquer metal. Tinha sim muita terra, que úmida do suor despendido na trabalhosa empreitada, formou lama que cobriu os caçadores de tesouro, deixando os dois mais parecidos com assombrações do que pessoas.

quarta-feira, julho 29, 2009

78) O maior jogador de futebol de Tatuí

O famoso atacante goleador do Palmeiras na década de 50 e campeão mundial de 1958, na Seleção Brasileira de outros tempos, José João Altafini, era conhecido no Brasil como Mazzola, devido à semelhança física e modo de jogar com Valentino Mazzola, ídolo italiano do Torino, nos anos 40.

Descendente de italianos, nascido em Piracicaba, começou a jogar no Clube Atlético Piracicabano, indo parar no Palmeiras em 1955, sendo considerado a grande revelação do futebol brasileiro no ano de 1957. Depois de jogar na Copa de 1958, acabou transferindo-se para a Itália, onde jogou até mesmo na seleção italiana. Vive até hoje em Turim, onde é comentarista de futebol para um canal de TV e uma estação de rádio.

Entretanto, enquanto não tinha fama, jogou em Tatuí, no Esporte Clube São Martinho e, também, no Esporte Club São Bento, de Sorocaba. Aqui começa o caso que nos interessa:

Quem conhece o Osvaldo Paes de Camargo? Pouca gente. E o Aranha relojoeiro? Muita gente! Acontece que em Tatuí não vale o nome de família, o nome que pais e mães escolhem para seus filhos. O que vale mesmo é o apelido. Aranha é o apelido de Osvaldo. Trata-se da mesma pessoa. É preciso, no entanto, não confundir com Osvaldo Aranha, brasileiro que presidiu, em 1947, a Assembleia Geral da ONU que criou o Estado de Israel. O “nosso” Aranha tem muita história para contar, mas sempre ao nível municipal, sendo que o “outro” Aranha é internacional.

Bem, mas o tatuiano tem também uma ligação internacional, pois quando jovem trabalhou para os Iazetti, tatuianos produtores e exportadores de abacaxi. De acordo com o historiador Renato Camargo, a função do Aranha tatuiano era embalar abacaxis para exportação. Ele e seu irmão arrumavam os fardos que eram colocados em um trem e, em seguida, levados à Santos, de onde, embarcados em navios, eram exportados para os Estados Unidos e para a Europa.

Em sua juventude, o Aranha tatuiano foi um dos melhores jogadores de futebol que Tatuí já teve. Um verdadeiro craque goleador. E isso exatamente em uma época em que o futebol tatuiano era um dos melhores do interior paulista. O XI de Agosto conquistou o bi-campeonato amador do Estado de São Paulo, que nessa ocasião não era pouca coisa. O feito do time da égua vermelha foi tão grande que lhe valeu uma menção até mesmo no hino de Tatuí. No estribilho do hino, junto ao amarelo-ouro do abacaxi que o Aranha embalava para exportar, vem a lembrança de “Tatuí do XI de Agosto”. Essa menção advém das glórias do time tatuiano.

Pois bem, o Aranha era jogador titular do São Martinho e, em certa ocasião, veio jogar nesse time nada menos que o Mazzola. Em quem posição? Mazzola foi reserva do Aranha! Algum tempo depois, Aranha foi jogar em Sorocaba, no time do São Bento. Tinha também um reserva: o mesmo Mazzola.

Dada a importância do Mazzola para o futebol nacional e internacional, é preciso considerar o Aranha como o “maior jogador de futebol de Tatuí de todos os tempos”! Além do Aranha, Mazzola só perdeu o lugar de titular para o Pelé, ainda na Copa de 1958, voltando dois jogos depois para substituir o não menos famoso Vavá. No Brasil, Mazzola perdeu sua condição de titular uma vez para Pelé e duas vezes para o Aranha.

Hoje, se você desejar um belo relógio, procure o Aranha. Sua especialidade é negociar relógios:

- Este é um legítimo “Oméga ferradura”! – o Aranha costuma oferecer.

- Tenho também Roscoff Patent, Patek Philippe, Technos, Dumont e este outro Oméga, sem ferradura, mas que é uma beleza!!! – continua oferecendo.

Além do Aranha temos em Tatuí o Adhemar, filho do Tio (isso mesmo, seu pai é o Tio, vereador de Tatuí), que foi artilheiro do São Caetano e, com seu chute poderoso de esquerda, jogou no futebol alemão, no Stuttgart. É uma bela carreira, mas não teve um reserva tão importante e, por isso, consideramos o Aranha como ”o maior jogador de futebol que Tatuí já teve”!

quarta-feira, julho 15, 2009

77) Telegrafistas engraçadinhos

As ferrovias já cumpriram um papel muito mais relevante nos transportes brasileiros, sendo relegadas a um plano inferior devido às políticas de sucessivos governos. A consequência disso são os custos de transporte e da logística da exportação do país, inviabilizando muitas áreas que poderiam gerar mais riquezas.

Mas no assunto ferrovia Tatuí foi uma cidade privilegiada, pois ainda no século 19 recebeu os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, o que significava que estava ligada ao resto do mundo. A sigla da Sorocabana – E.F.S. - servia até mesmo como um código de endereçamento postal, em uma época em que não havia o CEP. Endereçava-se uma carta para Tatuí junto com a sigla E.F.S. Pronto, com isto não tinha como errar: era só enviar uma encomenda ou carta com essa referência que chegava em seu destino.

O tatuiano Cícero Serrão trabalhou na Sorocabana mais de 35 anos. Fez de tudo por lá, aposentando-se como Chefe da Estação. Certo dia, quase na época de se aposentar, recebeu um novo funcionário, a quem passou a mostrar a estação e explicar suas funções. No momento em que chegou um trem, viram que outro funcionário, o truqueiro (uma função de ferroviário), pegou uma barra de ferro e pôs-se a bater nas rodas da locomotiva: blém, blém, blém, blém... O novo funcionário que estava com o Serrão observou e estranhou aquilo. Quis saber de que serviam essas batidinhas.

- Ô seu Cícero, por que aquele funcionário bate com isso nas rodas do trem? – perguntou o rapaz.

- Ah! Faz 35 anos que eu vejo alguém fazer isso, todos os dias, e ainda não sei e você quer saber já no primeiro dia! – foi a resposta que o Serrão lhe deu, deixando o rapaz completamente confuso.

Antes de ser Chefe de Estação, Serrão foi telegrafista. O telégrafo foi o primeiro meio eficiente de telecomunicação, inventado por Samuel Morse, consistindo na emissão de sinais – pontos ou traços – que representavam letras, números e pontuação. Com o tempo a pessoa vai decorando os pontos e traços e consegue travar uma conversação bastante rápida utilizando-se desse código.

O Código Morse usa traços e pontos substituindo letras, números e pontuação

O código original de Samuel Morse foi modificado, aperfeiçoando até que quase nada resta de sua configuração original. Nas ferrovias brasileiras o modo de comunicação era sempre o telégrafo, que também era utilizado por todas as pessoas que precisavam comunicar-se com locais distantes. Fui algumas vezes com meu pai na estação de Tatuí da Sorocabana quando ele precisava passar um telegrama.

Certa vez, estando em Itararé (a ferrovia que passa por Tatuí é o “Ramal de Itararé" da Sorocabana) provavelmente realizando um treinamento, Cícero Serrão hospedou-se em uma pensão dessa cidade, juntamente com outros colegas de diversas cidades. Depois de jantar ou almoçar, ficavam distraindo-se brincando de telégrafo, batendo com talheres em copos cheios de água, enquanto conversavam à mesa, observando todos que ali estavam.

Lamartine Babo era mesmo esquisito

Aparecia uma moça bonita e um batia em seus copos, “telegrafando” para o colega com seus pontos e traços: “O-L-H-A-espaço-Q-U-E-espaço-M-OÇ-A-espaço-B-O-N-IT-A”... Entrava outra pessoa, já “telegrafavam” outra coisa qualquer, fazendo comentários sobre ela, a maioria deles jocosos. E assim passavam o tempo...

A estação de Itararé era uma das mais importantes da Sorocabana. Além de ser o final do ramal que se inicia em Iperó, liga o Estado de São Paulo com o Paraná e era também onde aconteciam as baldeações da Sorocabana para as ferrovias que iam ao Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.

Certa noite, retornando do sul do país, apareceu em Itararé o famoso Lamartine Babo, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Compunha, entre outros gêneros, hinos de times de futebol, como o “Hino do Flamengo” e marchinhas de carnaval, sendo que uma das suas mais famosas é a marcha “O Teu Cabelo Não Nega”.

Enquanto aguardava um trem para prosseguir sua viagem, Lamartine foi à mesma pensão em que estavam Serrão e seus colegas para jantar. Ah! Com sua figura esguia e um tanto esquisita, no mesmo momento tornou-se alvo da brincadeira do Serrão e seus colegas:

Um deles, batendo nos copos, com o código Morse “telegrafou”: tlim, tliiiim, tliiiim, tlim... - “MAGRO, FEIO E DE VOZ FINA”. E começaram a rir.

Lamartine Babo levantou-se de sua mesa e, pegando duas facas, bateu nos copos da mesa do Serrão: “MAGRO, FEIO, VOZ FINA E EX-TELEGRAFISTA”! O homem entendia o código Morse!!!

Ah, quanto sorriso amarelo! Acabou com a graça deles. Os amigos ferroviários não sabiam como pedir desculpas ao homem, mas Lamartine era conhecido pelo seu bom humor e a coisa toda acabou mesmo em gargalhadas.

quarta-feira, julho 01, 2009

76) A Lambreta do Del Bem

A moda no final dos anos 50 e parte dos anos 60 era ter uma Lambreta ou Vespa. A indústria automobilística brasileira dava seus primeiros passos e comprar um automóvel era um sonho distante para a maior parte da população. Mesmo uma Lambreta ou Vespa não era para qualquer um, entretanto, ainda era um sonho que poderia ser possível.

Vespa vermelha

Algum tempo depois a moda passou. O sonho de consumo passou a ser o automóvel: Volkswagen Sedan, DKW, Gordini, Simca, Aero-Willys, etc. A moda era o Fusca!

Alguns anos depois, a motoneta voltou a entrar na moda. Todo mundo queria ter uma, além, é claro, do Fusca.

Nessa segunda vez em que as motonetas ficaram na moda, meados da década de 1980, o advogado e contador de "causos" Luiz Del Bem Jr. trabalhava na CESP e, com muito entusiasmo, comprou uma Lambreta. Era uma motoneta vermelha, bonita, barulhenta e poluidora. Ninguém ligava para isso nessa ocasião.

Lambretta

Prestimoso, quase nem andava com a sua joia. Ficava o tempo todo guardada na garagem da CESP, devidamente coberta com uma lona. Era um misto de veículo e namorada, pois ele tinha ciúmes de sua Lambreta. Ninguém podia mexer na bichinha, que arrumava uma encrenca na hora!

Certo dia, porém, teve de ir ao banco e, sem alternativa, montou na Lambreta. Uns minutos depois chegou ao Banespa, seu destino. Estacionou a motoca em frente à Ótica Peixoto e entrou no banco. Ah, mas estava preocupado! E se roubassem seu tesouro?

Sentou-se em frente ao gerente para tratar de negócios, ao mesmo tempo em que olhava para a rua, vigiando a motoca. Olha aqui, olha lá, impaciente, agitado... o gerente teve a impressão que o Del Bem havia ficado estrábico, pois colocou um olho nele e outro na rua.

O gerente do banco ficou preocupado com as atitudes do Del Bem. Pensou que ele estivesse tendo um treco qualquer e, por isso, resolveu a coisa rapidamente. Ainda bem, porque se aquilo demorasse mais 2 minutos o Del Bem ficaria vesgo para sempre!

Com um olho no gerente e outro na Lambreta, Del Bem arriscava ficar completamente estrábico!

Aliviado, saiu logo à rua. Não conseguiu atravessar a rua em um primeiro momento, pois o sinal estava aberto na Rua Onze e os carros passavam rapidamente. Quando o sinal foi fechando, percebeu que alguém saía montado em uma Lambreta vermelha. Um ladrão?

Não teve dúvidas, atravessou correndo a rua e, com um pulo, grudou no pescoço do rapaz que pilotava a Lambretta. Apertou o quanto pode. O rapaz, assustado, tentando se ver livre daquela situação, acelerou a motoneta.

Del Bem, com grande presença de espírito, levantou a parte traseira da Lambreta, que ficou com a roda girando no ar, mas sem conseguir sair dali. Gritava para o rapaz desligar o motor, mas acho que ele nem escutou, pois o ruído da máquina era alto. A fumaça do motor de 2 tempos enchia a rua, chamando a atenção de todos que ali estavam, inclusive de alguns policiais. Com a Lambreta acelerada e a roda girando em falso no ar, Del Bem olhou o velocímetro da motoneta, que marcava quase 100 quilômetros por hora.

Nesse mesmo instante, com o rabo do olho, viu estacionada em frente à Ótica Peixoto, a sua Lambreta. Imediatamente percebeu seu erro e soltou o pescoço do rapaz e a traseira da motoca. Quando a roda tocou no chão, girando em rotação máxima, o pneu patinou um pouco e a motoneta partiu como um raio, fazendo zig-zag, mas habilmente equilibrada pelo rapaz, que sumiu em instantes.

Os policiais, percebendo que o rapaz havia escapado, iam saindo em perseguição, quando o Del Bem, tentando disfarçar a situação, disse que o deixassem ir. Era um rapaz bem jovem e que, certamente, não tinha habilitação, apesar de sua habilidade em pilotar. Não quis conversa e desapareceu.

Todos ficaram intrigados com o acontecido, mas quando o Del Bem montou em sua Lambreta vermelha, idêntica à do rapaz, entenderam a cena e o engano ocorrido. Gargalhada geral!

quinta-feira, junho 25, 2009

75) Manolita não perdoa

Já faz alguns anos que o professor Wilson Bertrami apresenta um programa na Rádio Notícias de Tatuí. É uma programação de músicas antigas direcionada para saudosistas. Uma das músicas mais recentes que Wilson toca em seu programa é Kalu, um grande sucesso do final dos anos 40 e início da década de 1950. Antiquíssima, mas se mantém firme na grade do programa dele.

Outra música que se fez presente em seu programa é a outrora famosa Manolita. A letra dessa canção fala do romance de um toureiro com uma moça de Sevilha, moça esta que consultava uma cartomante a respeito do amor de Pedro, o toureiro. Fez tanto sucesso na década de 40 em todo o Brasil. Não havia uma festa, um encontro, uma programação de rádio ou um baile em que essa música não fosse exaustivamente tocada. Onde havia uma orquestra, logo aparecia um pedido:

- Toquem a Manolita! – em uníssono todos gritavam.

E a orquestra tocava, tocava, repetia, repetia. Ô música danada! De tanto repetirem a tal Manolita, ficou desvalorizada. Até a nota de um cruzeiro, lançada pouco tempo antes da gravação dessa música e que já nessa época valia quase nada, foi apelidada de “manolita”. Tocou tanto, mas tanto, isso em todo o Brasil, que não havia pessoa no país que não conhecesse sua letra.

De repente, alguém espalhou que essa música dava azar e quem cantasse a danada Manolita teria sérios problemas. Ih, foi o que bastou! Ninguém mais cantava. Os pais proibiram as crianças de cantarolar em casa. - Isso dá azar! – afirmavam. Em pouco tempo foram deixando de cantar, ouvir até que todos se esqueceram da Manolita. Ninguém mais se lembra da Manolita.

Ninguém, vírgula, porque Wilson Bertrami resolveu tocar a tal música em seu programa. Tocar ele tocou, mas não se sabe qual foi a reação de seus ouvintes. Pouca gente gosta de ouvir a Manolita, porque ainda se lembram de sua triste sina e de seu final horroroso: a morte do toureiro.

Wilson Bertrami não acredita em azar e, por isso, tocou a danada Manolita. Nesse dia, logo depois de voltar de seu programa radiofônico, estava com mil dólares em sua carteira, um dinheiro que sobrou de uma viagem que fez. Como não precisava daquele numerário, resolveu guardar. Mas guardar onde? Os bancos não aceitavam depósito em moeda estrangeira. Mas como sua esposa tinha um belo oratório com algumas imagens de santos de sua devoção, Wilson teve uma ideia:

- Vou guardar no oratório! – resolveu.

Enrolou as notas de dólares e enfiou na estátua de São Judas Tadeu, santo das causas desesperadas ou perdidas. É realmente um ótimo local para guardar dinheiro, dentro do santo, um costume que já vem desde o tempo do Brasil Colônia, com os contrabandos em santos-de-pau-oco. Assim foi feito.

Santo do pau oco

Logo Wilson esqueceu-se daquele dinheiro. Um homem como ele, trabalhador e previdente, não costuma passar apertos. As coisas sempre estão dentro do orçamento.

Pouco mais de um ano depois, quando o câmbio estava bastante favorável para quem possuía a moeda norte-americana, Wilson lembrou-se de seus dólares. Ao procurar o São Judas Tadeu em seu oratório, entretanto, teve uma desagradável surpresa: a estátua não estava mais lá!

- Onde está o São Judas Tadeu? – perguntou à sua esposa.

- Ah, faz tempo que a empregada derrubou e quebrou! – foi a resposta que ouviu, quase sem acreditar.

- E o que foi feito dos cacos? – desesperadamente perguntou.

- Levei ao cemitério. Naquele local onde as pessoas depositam estátuas e imagens de santos quebradas! – sua esposa explicou.

Wilson pegou seu carro e foi até o cemitério, com a esperança de encontrar os restos do São Judas Tadeu e que nesses restos ainda encontrasse os mil dólares. Nada! Nem santo, nem cacos e nem dinheiro! Logo fez a ligação: ele guardou o dinheiro logo depois de tocar a Manolita, a música que dá azar! E não adiantou pedir para o santo, pois os dólares não voltaram.

Alguém foi premiado com os mil dólares

Quero acreditar que alguém encontrou os mil dólares e deve ser até hoje devoto de São Judas Tadeu, o santo das causas desesperadas e perdidas. E nem sabe que, na realidade, deve tudo à maldição da Manolita. Depois disso, Wilson Bertrami continuou sem acreditar no azar, mas, por via das dúvidas, nunca mais tocou a Manolita!

sábado, maio 09, 2009

74) A joia do João

A melhor forma de vender ou comprar um automóvel nos anos 60 e 70 era através do João Bertanha, o maior vendedor de automóveis que conheci. Sua argumentação no momento da venda era infalível. O homem sabia como expor uma mercadoria, como encontrar o ponto que o freguês era convencido e a venda realizada.

Hoje, usam técnicas de psicologia, programação neurolinguistica, conceitos de marketing e tantas outras coisas para preparar um vendedor. João Bertanha nasceu vendedor. Não precisava disso. Ele acreditava naquilo que vendia e conseguia convencer o comprador. Cada carro que estava vendendo, considerava como uma joia.

- Estou oferecendo uma verdadeira joia! – argumentava.

Por causa dessa sua forma de oferecer os carros que vendia, acabou sendo conhecido com João Joia.

Certa ocasião, o Dr. João Jubran desejava vender seu Fusca. Era um daqueles primeiros Volkswagens importados e estava com ele há mais de 10 anos. Queria um modelo mais novo. Assim, foi atrás do João Joia, para que ele lhe encontrasse um comprador.

O Fusca do Jubran era bastante antigo

João Joia ofereceu o carro para algumas pessoas, mas não encontrou interessados na cidade. Tanto tempo que este carro estava com o mesmo dono, que parecia ter “assumido as feições do dono”. Engraçado isso, quando alguém tem um carro durante algum tempo, as pessoas ligam aquele carro ao seu dono e parece que um assume a aparência do outro. Neste caso a coisa não era diferente: era olhar para o Fusca e enxergar o João Jubran.

- Ah, eu não quero esse carro com a feição do João Jubran! – cada freguês que via o carro exclamava.

Não adiantava argumentar. O Fusca estava há tanto tempo com o Jubran que qualquer um que visse o carro lembrava-se de seu dono.

Mas João Joia não ia desistir. Ele vendia qualquer automóvel e considerou vender esse Fusca como um desafio. Teve uma ideia e falou para seu xará:

- Jubran,vamos até Cerquilho, que eu tenho lá uma freguesa para seu Fusca! – afirmou.

Pouco mais de uma hora depois já estavam na cidade vizinha, conversando com a tal freguesa. Como vender aquele carro havia se tornado um desafio para João Joia, ele caprichou na argumentação e, enquanto mostrava detalhes do carro, era acompanhado de perto pelo seu dono:

- Este carro é uma verdadeira joia! – começou a expor. – Olhe o porta-malas, não tem amassados! Veja o local do estepe, dá para perceber que não tem nenhuma batida! E veja só esta lataria. Não se fazem mais carros assim atualmente! – enquanto isso, batia com o nó do dedo no capô do carro: toc toc toc! – Dá pra perceber que não tem massa plástica! – Venha ver as dobradiças das portas! Nenhum ponto podre! É realmente uma joia!

Assim, João Joia ia mostrando o carro, item por item, à compradora, assistido de perto pelo Dr. Jubran. Iam os três rodeando o Fusca para acompanhar aquele rosário de elogios.

-E o motor, não gasta um pingo de óleo! – continuava explicando a situação daquele que parecia ser primor de engenharia. – Os pneus estão quase novos! Além disso, gasta pouca gasolina. Faz quase 20 quilômetros com um litro de gasolina! – enaltecia sem cessar o Fusca. A mulher, claro, estava encantada com o carrinho. Em questão de alguns minutos o negócio estaria fechado.

Em pouco tempo a mulher já sonhava pilotar aquela joia

De repente, Dr. Jubran chamou o João Joia e disse baixinho:

- Ah, é melhor não vender mais o carro. Não sabia que ele estava assim tão bom! – falou Dr. Jubran, que não quis mais vender. Voltaram com o Fusca para Tatuí.

Pois é! Não havia carro que João Joia não vendesse. Este Fusca ele acabou vendendo para o próprio dono, que ainda lhe pagou pelo tempo despendido. Esta é uma história com final feliz! Todos ficaram felizes: Dr. João Jubran com aquela joia que não sabia que tinha. João Joia com a comissão da venda para o próprio dono e ainda ajeitou outro Fusca, digo, outra joia para sua freguesa de Cerquilho. Pode?

sábado, fevereiro 21, 2009

73) Horário de Verão

Durante a ditadura de Getulio Vargas, o consumo de energia elétrica no Brasil aumentava constantemente e não havia fornecimento suficiente. Nessa ocasião o país se eletrificava. A saída encontrada foi implantar o horário de verão.

O horário brasileiro de verão foi estabelecido para aproveitar a luz do sol na época em que há maior luminosidade no hemisfério sul. Prevê-se uma razoável economia no consumo de eletricidade com essa mudança. Entretanto, tinha sido imposto por um governo não democrático e ficou conhecido como o “horário do Getulio”.



Na década de 1960, com a intensificação do processo de industrialização do país, ocorreram situações de escassez de energia elétrica e, em alguns anos, foi novamente estabelecido o tal horário de verão para auxiliar suplantar essa dificuldade.

É preciso acertar os relógios duas vezes por ano!

Algumas pessoas, como meu tio José, não modificavam o relógio porque, dizia:

-Esse é o horário do ‘márdito’ Getulio!

Como era teimoso ao extremo, todos os seus relógios continuavam com o horário normal o ano todo.

Getulio liderou o golpe de 1930

Essa birra contra Getulio Vargas vinha da década de 1930, quando ele deu o golpe contra Julio Prestes e assumiu a presidência, desbancando o PRP e a política do “café-com-leite” que comandava o Brasil desde o final da monarquia.

Meu avô Tonico, peerrepista e revolucionário constitucionalista, nunca perdoou Getulio, sendo acompanhado nisso pelo seu birrento filho.

No inverno, o vento frio vem da região antártica e passa por terras gaúchas, origem de Vargas, até chegar para esfriar Tatuí.

Quando ventava frio, vovô dizia:

- Arre! Do sul nem o vento presta! – fazendo com isto referência ao famoso gaúcho.

Pois bem, tio José nunca acompanhava o horário de verão em função de sua implicância com Getulio, que nessa época já havia falecido.

Havia, no entanto, outras pessoas que não acompanhavam esse horário, mas devido a outros motivos, como foi o caso de Rita, mulher ingênua que era empregada de João Augusto, o velho.



Logo depois de uma mudança de horário, Rita começou a chegar atrasadíssima em seu emprego. Ela precisava tomar um ônibus para vir de sua casa ao trabalho. Mas estava perdendo o primeiro ônibus e ficava esperando um tempão pelo próximo.

- Eu cheguei ao ponto e o ônibus já tinha passado! – explicava-se a cada atraso.

Rita ficava um tempão esperando o próximo ônibus

- Você acertou o relógio com o horário de verão? – perguntou alguém da casa em que trabalhava.

- Ah, acertei sim! – respondeu Rita.

Mas os atrasos continuaram e não conseguia pegar o ônibus. Verificaram os horários e constataram que não havia nenhuma alteração e todas as linhas estavam funcionando normalmente. Que mistério!



Em mais uma tentativa de resolver o problema, perguntaram novamente a respeito da mudança do relógio da casa da Rita, que esclareceu:

- Eu acertei o relógio, mas achei que era muito adiantar uma hora inteira e adiantei só meia hora! – explicou Rita.

Com essa sua meia-hora de verão, Rita ficou fora do horário.