quinta-feira, junho 29, 2006

51) As telhas do Nino Küel

Nino Küel tinha uma olaria no bairro do Marapé. Bem ao lado do ribeirão Manduca. Um terreno grande, mas alagadiço, pois nele há o encontro de dois cursos d’água: o ribeirão que nasce nas proximidades do Matão da Tica e atravessa a Vila Esperança e o trecho que atravessa toda a cidade, desde o Valinho.

Chovia um pouco mais forte e a olaria do Nino ficava submersa, inclusive o forno, dando prejuízos enormes. Isso não acontecia antigamente, era coisa muito rara. Entretanto, com a pavimentação que impermeabilizou as ruas e o crescimento da cidade, a coisa passou a ser constante. Até mesmo a ponte da entrada da cidade foi danificada algumas vezes, devido ao volume da água nas chuvas.

Quando chovia forte, a água subia até chegar ao telhado da olaria

Certamente que existiam alternativas para resolver o problema da olaria, mas Nino Küel fugia dos gastos e a coisa toda foi continuando. Depois de algumas enchentes, ele deixou de produzir na época de maior intensidade de chuvas, evitando maiores prejuízos.

Nino poderia ser considerado um filósofo. Suas ponderações sobre todos os acontecimentos, apesar de sempre ter uma pitada de humor, eram profundas… sua opinião era valiosa.

Conselhos ele dava de graça! Igual a algumas igrejas atuais, que cobram tudo de seus fiéis, fazendo Lutero revirar no túmulo, cujas únicas coisas que dão de graça são conselhos... e só os que lhes convêm.

- Você está demorando muito pra casar. Daí fica desatualizado e quer dar bibioquês de presentes aos filhos! – dizia Nino para alguns amigos solteirões. – E as crianças de agora querem videos-games! – completava.

E, para se ter uma idéia de seus pensamentos filosóficos, eis aqui um deles, relativo ao caráter efêmero da beleza feminina: “A feia tem uma pequena chance de melhorar, mas a linda não. Ela já é linda, não vai ficar mais linda. Vai é ficar feia!”.

- Conheço muitas senhoras elegantes e bonitas que não eram tão bonitas quando adolescentes - dizia Nino - Tenho visto, agora, algumas, que eram lindas, transformadas em verdadeiros dragões! - completava.

O tempo tem mostrado que o Nino Küel tinha mesmo razão nisso! Vale para homens e mulheres!

A olaria do Nino era um tanto rudimentar, mas sua produção tinha fama!

Mas vamos ao nosso caso! A olaria do Nino estava com um problema que não dava para ignorar: ele fabricava telhas francesas e a forma onde eram feitas as telhas empenou, fazendo com que as telhas produzidas não encaixassem, dando goteiras que davam a impressão que chovia mais sob o telhado que ao ar livre. Com isto, as vendas quase cessaram por completo.

- Ih, não está vendendo nada. – reclamava Nino – só sai telhas em sacoladas, para remendar alguma goteira! – explicava.

Vendas de olarias costumam sair em caminhões, mas as vendas do Nino cabiam em sacolas!!!

O estoque ia aumentando, deixando louco o Pedro Cornoló, seu forneiro, que dizia:

- Nino, precisa abrir um pouco a vossa mão e comprar novas formas. Isto aqui não serve pra telhado!

Muito a contragosto, Nino teve que encomendar nova forma para suas telhas. Foi mesmo “na marra”, porque não era mesmo um gastador. Era bastante pão-duro. Nem tinha telefone. Quando alguém queria falar com ele ligava no armazém da esquina e o Ari ou o Zé corriam chamá-lo em sua casa ou nas proximidades. O Nino nunca descia até a olaria e também não parava dentro de sua casa. De nada adiantaria um telefone que não o encontrasse (resta lembrar que nessa época não havia celular).

As telhas costumam mostrar, em relevo, a identificação do fabricante, marca, endereço, telefone, etc. Quando Nino encomendou a nova forma de telhas, informou um número de telefone. Mas ele não tinha telefone!!!

Logo chegou a nova forma de telhas que o Nino encomendou. Beleza! Agora as telhas encaixavam direito.

- Tá na supimpeza! – como ele costumava dizer.

Logo que fabricou as primeiras telhas vi o material. Agora as telhas ficaram ótimas. O material produzido em sua olaria sempre teve boa fama. Mas desta vez havia um detalhe importante: As telhas traziam, em alto relevo, os dizeres: Cerâmica São José. E tinham um número de telefone: o telefone do armazém do Ari Macarrão e do Zé Quirera!!!

As telhas do Nino traziam marcado o telefone do armazém da esquina

Para não gastar com telefone, Nino Küel colocou o telefone do armazém sem nem mesmo consultar os donos. Isso tudo para economizar com a conta do telefone. E o Zé Quirera e o Ari Macarrão, sem saber, tinham se transformado em seus secretários... gratuitos, é claro.

Os comentários do Nino Küel estão fazendo muita falta!!!

sexta-feira, junho 23, 2006

50) O maior cantor de serestas de Tatuí

Jarbinhas Sobral sempre foi um amante da música. Era ainda um menino e já cantava e tocava violão nas serenatas, isto lá pelo final da década de 60. Eu mesmo participei de algumas serenatas junto com ele. Em algumas ele soltava sua voz, encantando a homenageada, mas, vez por outra, entrava com algumas brincadeiras e trocando a letra das músicas em paródias horrorosas, fazia todo mundo sair correndo… Aquilo poderia até dar encrenca!!!

O danado tem uma bela voz! Quer dizer, não é um vozeirão de um Francisco Egídio ou Roberto Rosendo, mas é bom!

Seu repertório é mais ou menos eclético, mas tem uma queda para a música de seresta. Em Tatuí, durante algum tempo, teve até festival da seresta, uma tentativa de ressuscitar um gênero que teve seu auge no início do século passado. Alguns saudosos tentaram dar uma sobrevida ao gênero, mas isso significava o mesmo que fazer o Volkswagen de novo: sentar numa prancheta e recomeçar a desenhar o Fusca... não havia nenhuma vantagem nisso.

Nesse mesmo gênero musical, Bruno Baroni, outro tatuiano amante da música (e das corridas no Jockey, diga-se de passagem) tentou lançar-se como compositor de serestas.

Baroni ganhou o troféu abacaxi, que se recusou a pegar

Fez e apresentou na Discoteca do Chacrinha uma canção dedicada ao Velho Guerreiro, que lhe deu uma sonora buzinada e um abacaxi.

Entanto, sempre há público para músicas de seresta. São saudosistas que desejam relembrar momentos importantes de seu passado. É exatamente nisto que o extinto Festival da Seresta de Tatuí pecava: saudade requer tocar novamente as músicas existentes e não fazer novas composições sem ligação sentimental alguma.

Mas vamos voltar ao protagonista deste caso. Certo dia, cerca de quinze anos atrás, Roberto Rosendo, que nessa ocasião comandava um programa de seresta num canal de televisão de Itu, convidou o Jarbinhas para cantar em seu programa semanal. Claro que ele aceitou. Quem se dedica à música adora uma platéia, quanto mais sendo transmitido pela televisão... mesmo que fosse um canal com alcance apenas em uma pequena região.

No dia do programa, Jarbinhas foi para Itu com alguns amigos. Chegou bem adiantado... não seria ele a dar o cano. Conversou com os músicos que iriam acompanhá-lo em sua apresentação, ensaiou e ficou aguardando a hora de entrar em cena.

Ô enrolação!!! Programa de televisão tem que atender aos patrocinadores, tem uma seqüência a seguir e, para completar, talvez aumentada pela ansiedade do Jarbinhas, parecia que a “falação” do Rosendo não tinha fim... Entrava um artista, cantava 2 ou 3 minutos e o Rosendo preenchia o resto do tempo com 15 minutos de conversa... Anunciava que naquele programa receberia, para cantar, Jarbas Sobral, o maior cantor de seresta de Tatuí.

Com a ansiedade, Jarbinhas tinha impressão que o Rosendo não parava de falar com seu auditório

E o Jarbinhas esperando, desesperado!

Entra artista, sai artista e o Rosendo não parava de falar:

- Hoje receberemos aqui o maior seresteiro de Tatuí. O maior violonista da região de Tatuí! – repetia incessantemente Rosendo.

- Receberemos aqui o doutor Jarbas Sobral, o maior dentista da região de Tatuí! – empolgado, Rosendo continuava a valorizar seu convidado.

E canta um e canta outro, entra intervalo e sai intervalo, mas o Jarbinhas nunca era chamado.

O Rosendo continuava a anunciar “o maior seresteiro de Tatuí”. “O maior isto e o maior aquilo”.

E o Jarbinhas nervoso, ficava roendo suas unhas.

Depois de tanta enrolação, parecia que nem mesmo ia cantar. Mas chegou a tão esperada hora. Alguém apareceu e avisou ao Jarbinhas que ele entraria em seguida.

Daí parece que o Rosendo enlouqueceu:

- Vamos receber agora o maior cantor de seresta de Tatuí. O maior barítono da região, o melhor violonista, seresteiro aclamado pelas mais seletas platéias. O maior dentista de Tatuí. O cirurgião das elites! A voz mais afinada... o dentista musical!

- Com vocês: o grande Jarbas Sobral!

Jarbinhas, nervoso com a demora e a infindável apresentação, entrou no palco quase que tropeçando.

Por alguns instantes, Jarbinhas sentiu-se como um palhaço perdido

Quando chegou ou microfone, Rosendo continuou:

- Ele é também o maior contador de piadas de Tatuí!

- Jarbas, conte uma piada para nós! – disse Rosendo, sem qualquer prévia combinação.

- Ééééhhh! – o Jarbinhas engasgou. Não esperava isso, não lembrava de nenhuma piada. Aliás, não se lembrava nem mesmo o que estava fazendo ali... luzes, câmeras, aplausos...

Mas teve uma saída brilhante:

- Está feita a piada! – disse Jarbinhas – Há quarenta anos eu sonho em cantar na televisão e quando venho para cantar pedem para contar uma piada!!!

Cantando, Jarbinhas encantou!

Nem o Rosendo esperava por essa escapada do Jarbinhas, que, logo em seguida, soltou seu vozeirão e cantou Carinhoso, para o delírio da platéia.

Artista é artista, sempre. Ainda mais quando é tatuiano.

terça-feira, maio 23, 2006

49) Desgraçada engrenagem

Aldo Orsi foi um torneiro mecânico afamado. Sua fama, no entanto, era exatamente devido ao seu trabalho e ao conhecimento da profissão e não como o “outro” torneiro mecânico famoso, cuja fama não advém do trabalho na profissão. A oficina do Aldo ficava no Bairro 400. Tornos, fresadeiras, furadeiras, prensas… era uma oficina completa, que prestava serviços para inúmeras empresas da cidade.

Sua oficina nunca parava. Aldo e seus funcionários trabalhavam muito para conseguir atender a todas as solicitações. Sempre de bom humor.

Em determinada ocasião, ocorreu um problema com uma máquina da Fábrica São Martinho. A peça quebrada era um redutor de rotação. Um redutor é, para simplificar, uma caixa com inúmeras engrenagens de diversos diâmetros com a função de reduzir a rotação e aumentar a potência transmitida ao eixo motriz.

O equipamento era essencial para o funcionamento da fábrica, mas Aldo costumava respeitar a ordem de entrada dos serviços em sua oficina. Havia muito serviço na frente.

O redutor foi entregue semi-desmontado, pois para descobrir que havia uma engrenagem quebrada, foi preciso abrir o aparelho. Logo que chegou à oficina a engrenagem foi consertada. Faltava apenas montar novamente todo o conjunto de engrenagens.

As engrenagens estavam todas espalhadas

Isto era um trabalho de precisão. Aldo costumava fazer esse tipo de serviço. Só que ele andava ocupadíssimo com umas bombas d’água do SAAE (antes da Sabesp, havia o Serviço Autônomo de Água e Esgoto), pois a cidade estava sem água!!!

Com isto, havia demora inesperada na entrega do redutor. Entretanto, a Fábrica São Martinho não poderia ficar parada. Sendo assim, alguns funcionários da São Martinho vieram buscar de volta o tal equipamento, a mando do gerente. O redutor estava totalmente desmontado, mas insistiram em levar de volta, dizendo que eles mesmos iriam montar.

Aldo imediatamente juntou todas as peças do redutor e entregou para o pessoal. Só que ele, além de colocar todas as peças do equipamento, pôs junto uma engrenagem extra. Ele não deixaria de pregar uma peça no pessoal.

Aí surgiu o grande problema: os mecânicos da fábrica montaram o redutor e sobrou uma engrenagem.

-Ei, vocês erraram em alguma coisa. Podem desmontar tudo! – ordenou o gerente.

E assim fizeram. Desmontaram tudo mais uma vez e montaram. Novamente sobrou aquela engrenagem.

-Fizemos tudo certo, mas mesmo assim sobrou peça! – disseram.

Ninguém teve coragem de experimentar ligar o equipamento. Ele poderia ficar todo arrebentado...

- Podem desmontar novamente! – disse o gerente, agora bastante preocupado com a capacidade de seus funcionários.

Mais uma vez desmontaram a máquina.

Com cuidado redobrado, montaram mais uma vez. Peça por peça. Com muita atenção.

Apesar dos cuidados, a montagem parecia não dar certo

Pois não é que sobrou uma engrenagem novamente!!!

- Vamos experimentar ligar!

- De jeito nenhum! E se quebrar?

-Mas que faremos?

- Não tem jeito. Temos que levar novamente à oficina do Aldo. Ele pode ter uma solução.

E assim o fizeram. À tardinha levaram novamente o redutor desmontado e, humildemente, pediram ao Aldo que consertasse aquilo. Confessaram-se incapazes de resolver o problema.

- Deixem aí que amanhã mesmo estará montado. Podem vir buscar às 11 horas. Se chegarem depois disso estará fechado para o almoço e eu não vou abrir antes das 13 horas. Não atendo no horário do almoço!!!! – frisou Aldo.

O pessoal da São Martinho foi embora, ainda duvidando que o equipamento estivesse montado no horário estipulado...

Que palhaçada!!!

O que Aldo fez para montar? Simplesmente tirou fora a engrenagem que sobrava nas montagens e conferiu a montagem dos funcionários da São Martinho, que estava correta, diga-se de passagem. Pronto, só faltava entregar. É, ele sempre fazia das suas.

Quando Aldo Orsi faleceu o Bairro 400 ficou mais pobre. Algumas pessoas nunca são substituídas!

domingo, maio 14, 2006

48) Pegando no tranco

Certo dia um avião sobrevoou a Praça da Matriz logo pela manhã. Zuuuummmm! Era um bimotor Douglas "Havoc" A-20K da Força Aérea Brasileira. Tratava-se do coronel Ivan Bernardini Costa, que na ocasião ainda dava seus primeiros passos na FAB. Isto aconteceu em 1951, quando ele ainda era tenente-aviador.

O Douglas aterrisou no aeroporto de Tatuí

Tinha que cumprir algumas horas de vôo e, com essa desculpa, veio a Tatuí e aproveitou para ver sua noiva (depois esposa). Desceu no “campo de aviação” de Tatuí. Um telefonema e logo alguns amigos lá estavam para recebê-lo, mas sua primeira parada foi na casa da noiva. Isso era mais importante que todo o resto.

Mais tarde tornou encontrar-se com os amigos, para colocar as coisas em dia. Informou que estava sendo obrigado a cumprir algumas horas de vôo, como exigência de sua carreira militar.

-Tenho que voar ainda algumas horas hoje, para atingir a meta necessária! – contou aos amigos Erasmo Peixoto e Hélio Reali.

Hélio Reali teve uma idéia:

- Vamos visitar o Liliu Vieira! Ele está lecionando em Mirandópolis! – disse Hélio.

- Isso mesmo. Daqui até lá serão algumas horas de viagem pra você somar na sua meta, Ivan! – reforçou Erasmo.

Imediatamente Ivan topou a sugestão. Porque não? Cumpriria sua meta junto com seus amigos e ainda faria uma visita para outro. Tomaram o táxi para ir ao aeroporto, ou campo de aviação, como era chamado pelos tatuianos.

O táxi era um belo Chevrolet “De Luxe” do Chico Arruda, conhecido chofer de praça da cidade. Avisaram aos familiares e foram ao avião.

O aeroporto de Tatuí consistia de um pequeno hangar e uma pista poeirenta. Hoje tem diversos hangares e sua pista é asfaltada, capaz de receber até jatos de tamanho médio.

Desceram do táxi e subiram no avião. Enquanto o pessoal que ficou em terra olhava, Ivan preparava-se para dar a partida no aparelho. A partida era feita com emprego de cartuchos carregados com pólvora, que explodiam em um compartimento próprio, dando o início de rotação ao motor.

O cartucho era acondicionado em peça igual a esta

BANG! Explodiu o primeiro cartucho, mas o motor praticamente não se moveu. A hélice estava imóvel.

Isso era coisa normal. Dificilmente o motor “pegaria” com o primeiro cartucho.

BANG! Mais um estouro e apenas um pequeno movimento na hélice.

Os “expectadores” que estavam em terra já achavam que não iria funcionar.

BANG! Um pequeno giro e parou.

No momento em que Ivan preparava-se para disparar outro cartucho, percebeu que o avião estava andando... devagar, mas já aumentando a velocidade. “Será o vento?” – pensou.

Ivan abriu a janela e deu uma espiada no que acontecia

Colocou sua cabeça fora e olhou para trás. Havia uma multidão empurrando o avião, que a esta altura já estava com uma boa velocidade.

Chico Arruda, que liderava o empurrão do avião, deu um grito:

- Engate uma segunda! Engate uma segunda e dê um tranquinho que pega!

Cel. Ivan voou o mundo todo pela FAB, mas coisa assim só poderia ter acontecido em Tatuí!!!! ARRE!

Depois da trapalhada, voaram tranquilos para encontrar o Liliu

sábado, abril 15, 2006

47) O forró do Gessé

Este caso difere um pouco dos demais, pois se trata de um acontecimento recente. Cerca de dois ou três anos apenas. Mas mesmo sendo tão recente já possui seu valor “histórico”, motivo pelo qual está sendo registrado aqui.

Durante algum tempo, as noitadas no bairro da Americana estiveram na moda. Isto tudo devido à casa noturna localizada lá, chamada Pantanal. Nos finais de semana muitos iam ao “Pantanal”. O nome é bastante apropriado, pois está em um local que todo ano, por ocasião das chuvas, inunda. Fica mesmo um pantanal.

Em um determinado sábado programaram um grande baile na Americana. A movimentação na cidade começou no meio da semana, todos desejando ir ao baile. O meu amigo Cabreira não poderia deixar de aparecer. Logo ele, amante das noitadas e, principalmente, do forró. Lá era o lugar que aconteciam os mais animados bailes de forró da região. Era um acontecimento “for all”...

Mas para “festar” é preciso animação. Para alcançar o necessário grau de animação, ficou algumas horas “se animando” em um bar da Avenida Firmo Vieira. Quando achou que estava no ponto adequado, partiu para a Americana.

O seu carro estava estacionado no sentido Estação – Centro e, assim, para não fazer manobras perigosas, virou à direita e desceu em direção à Vila Dr. Laurindo. Depois disso é só virar novamente à direita e seguir...

Todavia, com o grau de animação do Cabreira este, que é um caminho fácil, transformou-se em complicadíssimo quebra-cabeça. Vira aqui, vira lá, virá pra cá e pra lá... retorna acolá... que confusão... estava completamente perdido... nem parecia que estava em Tatuí.

Com bastante dificuldade, conseguiu chegar às proximidades da ponte da estrada da Americana. Mas não passou por cima da tal... virou antes e entrou no Jardim Manoel de Abreu. Vira aqui e ali e, de repente, estava na rodovia, perto da Ceagesp.

Ah, não era esse o caminho. Deu meia volta, seguiu e... e... e... perdeu-se novamente. Vira aqui e retorna ali... Não sabia que caminho tomar. Pensou em olhar para as placas das ruas para tentar descobrir onde estava.

Nesse momento, passou por um barracão com alguns letreiros. Esforçou-se um pouco e leu: “Forró do Gessé”. Puxa, sem querer havia encontrado um outro local de forró. Está ótimo! Já que não encontrava o caminho para o Pantanal, este outro forró resolvia seu problema.

Só que ainda estava fechado. Mas casa noturna que se preze não abre mesmo muito cedo. Ainda nem eram 9 horas.

Cabreira traçou uma estratégia inteligente: esperar bem em frente ao portão de entrada do barracão. Assim, quando abrisse ele seria o primeiro a entrar e poderia forrozear à vontade. A mulherada que se cuidasse!!!

Entretanto, em poucos minutos aqueles líquidos que tomou para se animar começaram a reverter o efeito e ele dormiu. Dormiu igual a um bebezinho. Um anjinho. Mas isso não seria problema... quando o tal forró abrisse ele acordaria com a movimentação.

As horas passaram e o dia clareou. Um belo domingo de sol.

Na posição em que estava seu carro, o sol da manhã bateu forte em seus olhos, acordando-o.

- Puxa! Ninguém me acordou e eu perdi o forró! – resmungou.

Olhou para o barracão para ver se ainda via alguém e reclamar...

Mas agora seus olhos não estavam embaçados e leu: “faço forro de gesso”!

"Faço Forro de Gesso" dizia o letreiro.

Não era forró, mas sim Forro de Gesso!!!

Aiaiaí, Cabreira, que confusão!!! Tinha que ter álcool nessa história!!!

sexta-feira, abril 07, 2006

46) O caso do leitE quentE

Até o final da década de 80, o chefe do Almoxarifado da Prefeitura de Tatuí era o Alcebíades Coelho, mais conhecido como Zorro. Trabalhou muitos anos na Prefeitura, até aposentar-se. Faleceu há algum tempo e deixou muitas histórias… Aqui vai uma delas, contada pelo Antonio Alcebíades Paes, sobrinho do Zorro:

Certa ocasião, uma Caterpillar da Prefeitura quebrou, justamente quando estavam consertando e alargando estradas municipais. Tinham pressa, pois havia chovido e, com o terreno úmido, ficava mais fácil de trabalhar. Além disto, sem esses cuidados, alguns trechos ficavam intransitáveis.

Como a coisa era urgente, os reparos na máquina não poderiam esperar.

Nessa época, quando havia pressa em qualquer coisa de São Paulo, alguém teria que ir buscar. Não existiam as entregas como sedex e coisas semelhantes, facilidades mais modernas.

Sendo assim, como havia urgência, o próprio Zorro foi a São Paulo buscar as peças para a Caterpillar. Ele e seu ajudante, conhecido por Nor. Para marcar sua posição, Zorro fez o Nor guiar a Rural Willys da Prefeitura.

Chegaram no fornecedor habitual da Prefeitura, logo ali no bairro da Lapa, em São Paulo. Mas aconteceu um imprevisto: a loja não tinha todas as peças. Teriam que comprar em outro fornecedor.

A própria loja encarregou-se de telefonar em seus concorrentes, buscando as peças que faltavam. Encontraram um fornecedor na Moóca.

Para não perder muito tempo, Zorro mandou o Nor ir verificar nessa loja se realmente eram as peças que precisavam:

- Nor, vai até a loja lá da Moóca, mas não vá logo comprando sem ver direito a peça... tem de ser exata! Vai lá e verifique! – ordenou Zorro.

Nor pegou a Rural e foi até o endereço indicado.

Enquanto isso, Zorro aproveitava para acertar o resto da compra e tomar um café com os vendedores, conhecidos de longa data.

Cerca de uma hora depois, ficou em frente à loja, calculando que já estava no tempo do Nor ir e voltar… Esperou um pouco, despreocupado.

Mas o tempo passava e nada de aparecer o Nor. Aguardou mais uma hora, uma hora e meia, duas horas… começou a preocupar-se… que teria acontecido com o Nor??? Será que foi assaltado? Pensou em ir procurá-lo, mas no mesmo tempo cogitou que poderiam desencontrar… Nessa ocasião nem se sonhava com o celular.

Depois de passar quase quatro horas, Zorro não teve mais dúvidas, tomou um taxi e foi até a Moóca procurar o companheiro.

Foi imaginando as piores situações.

Mas ao chegar no endereço, na mesma hora viu o Nor parado na esquina, conversando. A Rural estava estacionada logo virando a esquina.

- Que aconteceu??? – perguntou Zorro, com um misto de alegria por encontrar seu companheiro e zanga pelo tempo perdido.

- Eu tava esperando o senhor. – respondou Nor.

- Como? Porque esperar aqui… era pra você ter voltado há horas!!! – retrucou o agora furioso Zorro.

- Mas fiz o que o senhor mandou: vim na loja, virei e parei. – respondeu Nor.

- O quê? Eu não mandei nada disso… Mandei você vir aqui verificar se tinha a peça! – gritou Zorro.

- Ah, o senhor falou: vá lá, vire e fique! Foi o que eu fiz! – explicou Nor.

Que burrada, mas é compreensível. Em Tatuí as pessoas carregam sotaques peculiares. Além dos problemas com “erres” e “esses”, há o da pronúncia. O caboclo fala, por exemplo, leitE quentE, enfatizando a vogal “E”.

Uma xícara de leitE quentE

Mas pessoas da cidade pronunciam algo como “leitCHi quentchi”... Em outras palavras, o som da vogal “E” fica bem semelhante ao “I” !!!

Quando Zorro mandou o Nor ir verificar, misturou os sotaques tatuianos e disse algo como “virifique” ou “virefique”... quem não ouviu tal palavra pronunciada assim em Tatuí???

Pois bem, Nor seguiu ao pé da letra: VIRE E FIQUE!

Aiaiaí! Essas coisas só acontecem com tatuianos!!!

segunda-feira, abril 03, 2006

45) Avistamento ufológico

Rubinho Mortana: um igual a este não apareceu. Não conseguia abrir a boca sem inventar alguma coisa, sem tentar pregar uma peça em alguém. Mas suas brincadeiras eram inofensivas, ou quase!

Quer um exemplo?

Um dia, estava trabalhando no Posto 400, quando entrou para abastecer um Odsmobile Cutlass.

- Bom dia, doutor! – cumprimentou Rubinho ao cliente.

O cliente era o Virgilio Montezzo, que corrigiu imediatamente ao Rubinho:

- Eu não sou doutor!

Enquanto os frentistas cuidavam do carrão, Rubinho, muito sério, conversava com o homem:

- O sr. tá sabendo da grande indústria que está vindo pra Tatuí?

- Não! Que indústria?

- É uma grande indústria metalúrgica. Mais de 1.500 funcionários. É uma fábrica de click de bicicleta!

- Ah, fábrica de bicicletas? – perguntou interessado.

- Não, não! Vai fabricar só o click que vai dentro da catraca das bicicletas. Aquele que faz click-click-click quando pára de pedalar! – explicou Rubinho.

Montezzo olhou meio desconfiado… nem insistiu. Não sabia se era brincadeira, pois a fisionomia do Rubinho parecia de um homem sério. Sei lá o que pensou sobre isso, porque logo saiu dali.

Quando saiu, começaram as risadas. Rubinho estava satisfeito, pois era disso que ele gostava: tentar pregar alguma espécie de peça em qualquer pessoa. Esse era o Rubinho Mortana!

Em uma determinada ocasião, teve um posto de gasolina ali da Rua Onze de Agosto, próximo ao Clube de Campo. Era o Posto Shell Rugosil (pegou algumas letras iniciais de seu nome Rubens Gomes da Silva e criou essa marca).

Certo dia apareceram alguns amigos em seu posto. Entre estes amigos estava o Paulinho Duvirges, que também não deixava passar uma oportunidade para fazer alguém de bobo. Planejaram uma brincadeira para a noite: um disco voador!

Compraram do Osório da Telefônica alguns balões cheios com gás helio, papel celofane de diversas cores, fios, velas e alguns potinhos de iogurte.

Enquanto comiam o iogurte, foram montando o disco voador, ajeitando os balões e amarrando os potinhos de iogurte como se fossem barquinhas. Em cada barquinha colocaram um toco de vela. Tudo enrolado com papel celofane de diversas cores.

Quando escureceu, o apetrecho já estava pronto. E querendo voar, “puxado” pelos balões cheios de gás.

Lá pelas oito horas, acenderam as velas para dar os retoques finais. Conferiram a direção do vento. Soprava do sul para o norte.

- Ótimo, dá pra soltar aqui do posto. – disse Mortana.

E assim fizeram. Soltaram o “disco voador”, que subiu rapidamente, com as chamas das velas cintilando no papel celofane… brilhos mil.

Assim que subiu, tomou direção do centro da cidade.

Nesse momento já havia um monte de amigos no posto. Saíram em 3 carros para acompanhar o disco voador, que lentamente sobrevoava a cidade. Acompanhavam buzinando sem cessar, para chamar a atenção de quem encontrassem pelo caminho.

No escuro, as luzes refletidas confundiam todos

Enquanto desciam, as pessoas ficavam olhando para o céu, admiradas com aquela coisa luminosa. Quem tinha um carro, ia junto para observar de perto o fenômeno. Em pouco tempo o objeto voador ultrapassou a cidade, indo em direção ao bairro de Americana. Nesse momento, o cortejo que o acompanhava já tinha mais de uma dezena de veículos. Todos buzinando. Os curiosos iam juntando-se para ver o tal disco voador.

Estavam quase na metade do caminho do bairro de Americana, quando o vento mudou.

O objeto voador fez uma parada e recomeçou a voar mais ou menos para os lados do Morro Grande, desta vez em velocidade maior, porque o vento soprava forte.

Foi uma grande confusão. Todo mundo queria manobrar o carro ao mesmo tempo. Ronca daqui e ronca dali. A estrada não era pavimentada e os carros faziam levantar uma poeira danada.

Em minutos, todos seguiam de volta para a cidade. Em todos os carros tinha gente com a cabeça de fora, para tentar acompanhar o objeto voador não identificado.

Nesse momento já havia mais de 30 carros acompanhando o disco voador. Quando passavam perto de alguém, apontavam para cima e, para não exagerar, tinha alguns milhares de pessoas olhando para aquelas luzes que cruzavam o céu.

A velocidade do vento aumentava rapidamente, uma chuva forte aproximava-se da cidade. A confusão, o vento, a velocidade que os balões voavam, fez com que não conseguissem alcançar.

- Sumiu! O disco voador sumiu! – disse um dos que por ali estavam.

- Pudera, era rápido demais! – completou outro.

Rubinho, Paulinho Duvirges e os outros amigos estavam sem fôlego de tanto rir. A brincadeira havia sido um sucesso. Os comentários duraram semanas. Isso era o que interessava ao Mortana: fazer os outros de bobo. E fez mesmo.

44) O intrigante caso da fechadura semovente

A noite estava agradável. Nem fria e nem quente. Dr. Lanza, como sempre costumava fazer, estava ao portão olhando o movimento da rua. Gostava de ficar conversando ali. Sempre passavam conhecidos.

Em certo momento, Julio, seu vizinho, passou em sua frente, tentando firmar seu passo, um tanto trôpego. Estava voltando para casa. Eram famosas suas escapadas para ir ao bar. Sua esposa tentou de tudo, mas ele sempre achava uma saída. Ela escondia suas roupas e ele saía só com o roupão de banho. Era terrível!!!

- Boa noite! – disse Dr. Lanza ao vizinho.

- Boa noite! – respondeu Julio, tentando mostrar-se o mais firme possível. Mas não parou. Foi até sua casa, abriu o portão e entrou.

Dr. Lanza recomeçou a conversar e em pouco tempo esqueceu de seu vizinho. Uns minutos depois entrou em casa.

Quando estava em seu jardim, ouviu uns resmungos que vinham do outro lado do muro. Parou um pouco para escutar melhor e descobrir o que acontecia. Era seu vizinho que resmungava sem parar… e os resmungos eram acompanhados de praguejar…

Dr. Lanza ficou intrigado. Pensou que ele, que estava um tanto “alto”, poderia ter caído… Parou para escutar melhor. Os resmungos não cessavam. Só que o praguejar aumentava de tom.

Dr. Lanza não teve dúvidas: acontecia algo com seu vizinho.

Correu para lá. O portão da casa vizinha estava sem cadeado. Foi entrando e logo viu uma cena inesquecível:

Julio, empunhando a chave da casa, resmungando e praguejando. Tentava abrir sua porta, mas não conseguia acertar a fechadura.

Tenta mais para cima. Nada! Pragueja…

Tenta abaixo. Nada! Resmunga…

A fechadura não parava quieta! Subia, descia, virava para um lado, virava para outro. E ele, atordoado, cutucava a porta tentando enfiar a chave. Em cima, em baixo, a esquerda, a direita… Não conseguia colocar a chave na fechadura.

É coisa relativamente normal que pessoas um tanto embriagadas não acertem o pequeno orifício da fechadura… mas aquilo era demais.

Dr. Lanza chegou mais perto para ajudar ao pobre do seu vizinho abrir a porta. Foi então que entendeu o imbróglio… Não era a fechadura que Julio tentava acertar com a chave. Havia uma barata na porta e ele, com a vista embaçada, pensava ser a fechadura.

A barata simplesmente fugia a cada tentativa em acertá-la… subia, descia, virava… e o Julio corria atrás da barata com a chave, pensando que era a fechadura da porta… cutucando aqui e ali, sem sucesso.

Aiaiaí!!!! Será que isso só acontece com tatuianos???

quarta-feira, março 29, 2006

43) Carro versus Bonde

Algumas senhoras da sociedade local, preocupadas com as mães trabalhadoras, idealizaram formar uma associação (Associação das Mães) e criar uma creche para atender às mães que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar seus filhos.

Levaram adiante esse projeto, tornando realidade essa instituição que, durante muitos anos, tem auxiliado muitas mulheres trabalhadoras. Mas a luta não tem sido pequena. A associação só tem sobrevivido graças à persistência de inúmeras colaboradoras em todas as fases de sua existência.

Quando ainda buscavam recursos para construir a creche, na década de 1940, algumas senhoras resolveram ir a São Paulo levar pessoalmente suas reivindicações ao governador paulista.

Entretanto, a uma comitiva de senhoras tatuianas não convinha ir de trem, mesmo porque não conheciam direito a capital. Iriam de automóvel, decidiram.

Automóveis, nessa época, eram poucos, para não dizer raros. Também as estradas eram terríveis, sem pavimentação e com pouca conservação. Pediram a vovô Ernestino que as levasse em seu Ford. Claro que ele disse sim.

Só que minha avó ficou enciumada. Mesmo sabendo da finalidade da viagem, ficou preocupada com seu “galã” e, como não havia um lugar para ela ir junto, fez vovô levar minha mãe, na ocasião ainda uma menina. “Imagine, o Ernestino viajar sozinho com aquela mulherada elegante!!” – pensou vovó.

As senhoras estavam arrumadíssimas

No dia da viagem apareceram todas na casa de vovô vestindo taillers, belas bolsas, sapatos com salto e com os cabelos arrumados. Elas capricharam porque iriam encontrar o governador em pessoa!

A estrada de Tatuí a São Paulo não era pavimentada, como todas as outras nessa época: poeira, lama, buracos em todo o percurso. Qualquer viagem era uma aventura. Aquelas senhoras estavam dispostas a enfrentar para concretizar a associação.

O carro de vovô não era novo e nem muito bom. Também pudera, até para arrancar tocos de árvores no pasto ele usava o pobre veículo. Na verdade, nenhum carro era muito bom, pois o desgaste com as estradas acabava com eles. Além disto, como eram todos importados, não se encontravam peças com a facilidade de hoje e, sendo assim, os mecânicos tinham que ter muita criatividade e improvisação. Consertar algo quebrado era coisa de “artista”. Diferente disso, hoje é só substituir a peça quebrada.

Logo saíram em direção à capital. A viagem transcorria bem, até que começou a chover. Em uma baixada o carro encalhou. Não ia nem para frente e nem para trás. Vovô acelerava para tentar fazer o carro sair, mas só roncava e afundava cada vez mais na lama.

Só havia uma solução: empurrar o carro! Mas quem? Aquelas senhoras elegantemente vestidas?

Esperaram um pouco para ver se passava alguém, mas o trânsito era insignificante. Ficaram quase meia hora aguardando e nada. Ninguém apareceu!

Não teve jeito. As senhoras desceram do carro, enfiando seus sapatos chiques na lama grudenta. Empurraram, empurraram enquanto vovô acelerava o carro. O Ford roncava e espalhava lama para todos os lados. Quando conseguiram remover o carro do lamaçal estavam todas enlameadas.

Enquanto percorriam o resto do caminho até São Paulo, as senhoras tentaram limpar suas roupas. Limpa aqui, esfrega ali, molha acolá e conseguiram remover a sujeira aparente.

Chegaram a São Paulo. Com umas ajeitadas nos cabelos e borrifadas de perfume e estariam novamente prontas para encontrar o governador.

As ruas da capital não tinham o movimento atual, mas como eram todas estreitas e quase não havia avenidas, o trânsito na região central era intenso. Além de tudo, havia um ocupante famoso das ruas e que não mais existe: o bonde elétrico.

O bonde era o transporte urbano mais utilizado

As ruas centrais eram compartilhadas por pedestres, automóveis, caminhões, ônibus, bicicletas, carroças, animais e, claro, bondes. E bonde anda em trilhos. Com a confusão do trânsito os carros cruzavam os trilhos dos bondes o tempo todo. Quando aparecia o bonde, todos tinham que dar lugar... sair dos trilhos. Em algumas ruas de mão única, apareciam até bondes na contramão.

Pois bem, apesar de vovô já ter estado outras vezes em São Paulo, estava um tanto atrapalhado com o trânsito. Anda, pára, anda, pára... vira, desvira, acelera, freia... de repente, sem perceber, bateu levemente em um bonde que estava parado na sua frente.

Mas isso não foi nada. O problema foi que enroscou o pára-choques do Ford no limpa-trilhos traseiro do bonde. Vovô tentou dar uma ré, mas não conseguiu. Quando o bonde começou a andar, arrastou junto o carro.

As senhoras, apavoradas, começaram a gritar. Só que o motorneiro não percebeu que havia um carro enroscado no bonde. Vovô apertava a buzina, mas parece que todos buzinavam naquele momento.

O bonde arrastou o carro de vovô quase um quarteirão inteiro. A gritaria das senhoras aumentava o nervosismo de vovô, dificultando ainda mais a saída daquela situação.

Opa! Conseguiu! Com um movimento brusco do bonde e um tranco no volante, o carro ficou livre.

- Ufa! Agora vamos embora! – exclamou satisfeito vovô.

Mas não foi o que aconteceu. Pois não se sabe como, o carro enroscou novamente no bonde. Recomeçou a gritaria e as tentativas para sair daquela situação.

- Pelo amor de Deus, seu Ernestino, faça alguma coisa! – imploraram.

Desta vez o motorneiro percebeu e parou o bonde. Surgiram algumas pessoas que ajudaram a tirar o pára-choques do limpa-trilhos do bonde. Para não correr o risco de engatar novamente, esperaram um pouco, dando certa distância entre eles e o bonde.

Mais um pouco de tempo e estavam em frente ao palácio do governador. Antes de sair do carro, arrumaram-se como foi possível. Depois do lamaçal, da chuva, do bonde, estavam no destino.

Faltou pouco para o carro de Ernestino ficar assim!

Só que a coisa ainda não havia terminado. A chuva tinha alagado a rua e elas tiveram que caminhar em um verdadeiro riacho. Quando encontraram com o governador, estavam com os sapatos sujos, os cabelos despenteados, as roupas com respingos de lama...

A missão, no entanto apresentou bons resultados. Com a cooperação do governo, em pouco tempo as mães trabalhadoras de Tatuí tinham um lugar decente para deixar seus filhos, como têm até hoje.

segunda-feira, março 27, 2006

42) Enterro atrasado

Padre Murari foi mesmo inesquecível. Alguns tatuianos mais antigos dizem que “foi o melhor padre que passou por Tatuí”.

Pode mesmo até ser verdade, mas não dá para dizer que foi um padre dotado de paciência. O homem resolvia as coisas de seu jeito, não aceitando intromissão.

Certo dia faleceu um morador de um sítio um tanto longe da cidade. O óbito aconteceu ao meio dia em uma propriedade isolada. Junto só estava sua esposa. A mulher saiu de casa toda nervosa para avisar vizinhos e parentes. Como a propriedade era longe dos vizinhos, só retornou quando a noite já estava alta.

Alguns parentes, amigos e vizinhos passaram a noite toda velando o defunto. O choro dos parentes e das carpideiras atravessou a noite. O bule de café não parava cheio. Uma das vizinhas passou a noite fazendo incontáveis cafés. Enquanto isso, os homens contavam "causos" e tomavam toda pinga que havia por lá.

O choro das mulheres atravessou a noite

No dia seguinte, formaram um cortejo para levar o corpo a Tatuí, para ser enterrado no Cemitério Municipal.

Automóveis ainda eram raros nessa época. O sítio era longe e não tinha estradas, só caminhos. Colocaram o defunto em uma carroça e vieram à cidade.

Além do caminho ser ruim, faziam questão de passar pelas casas de conhecidos, para avisar do ocorrido. E todos queriam saber o que havia acontecido com o morto. Porque morreu, se estava doente, etcetera e tal. E ia juntando gente acompanhando o enterro. Mas cada parada atrasava mais um pouco a viagem. Quando chegaram à cidade já era bem tarde.

Não sei se devido à doença que o matou ou ao tempo transcorrido, quando chegou à cidade o corpo já começava a cheirar mal. A viúva desejava que o padre benzesse o defunto, realizando o último de seus desejos. Não queria enterrar sem isso.

Pararam a carroça na funerária, para comprar um caixão. Encontraram lá um que deu certo com o tamanho do defunto. No entanto, era um caixão caro e a viúva gastou todo seu dinheiro para pagá-lo.

A partir da funerária, o caixão seguiu carregado pelos parentes e amigos que acompanhavam o cortejo fúnebre desde o sítio. Ao chegar na igreja matriz, como a porta estava aberta, entraram com o caixão, para que o padre desse suas bênçãos ao morto.

Só que o padre não estava lá. Padre Murari havia saído para visitar alguém e não havia como avisá-lo.

Esperaram quase duas horas. Já era hora de fechar o cemitério. Nada do padre aparecer. Um dos parentes do morto correu ao cemitério para pedir que esperassem um pouco mais, avisando que o defunto já chegaria.

Enquanto isso, o defunto cheirava mal cada vez mais.

Preocupado, o João Sacristão mandou um mensageiro até onde o padre estava, pedindo que este voltasse logo, para benzer um defunto.

Padre Murari ficou contrariadíssimo. Estava na casa de amigos tomando uma pinga que trouxeram de Minas Gerais especialmente para ele.

Demorou um pouco mais, mas veio.

Entrou pela Casa Paroquial. Foi lá fazer alguma necessidade fisiológica. Logo saiu.

Chegou o padre. Enfim ele estava na sacristia colocando seus paramentos. O pessoal que acompanhava o enterro estava já conversando alto dentro da igreja, o que deixou o padre mais contrariado ainda.

Quando aproximou-se do defunto, assustou-se com o cheiro. O pobre homem já fedia.

Nesse instante, João Sacristão avisou que não haviam pago a taxa que se cobrava para benzer defuntos.

- Ah, tem que pagar! – determinou o padre.

A viúva veio explicar que não tinha mais dinheiro, que gastou tudo com a compra do caixão.

As pinturas dos anjinhos distrairam o pessoal

Nesse momento, aquelas pessoas que acompanhavam o enterro sumiram de perto. Uns olhando para as pinturas da parede e outros para o teto. Talvez ficassem obsortos ao apreciar as imagens dos querubins do teto em frente à sacristia. Sabe-se que o pintor inspirou-se na criança mais linda de Tatuí dessa época quanto pintou os tais anjinhos. Ninguém se prontificou a pagar ao padre.

- Não adianta, se não pagar não posso dar a bênção. É a norma! – afirmou o padre.

Mas o fedor invadia toda a igreja. Não dava mais para ficar com aquele defunto por ali.

A viúva, que desejava cumprir o desejo do falecido, disse:

- Não vou tirar meu marido daqui enquanto o padre não benzer! Que fique aqui o corpo - disse a viúva.

O problema estava agravando-se. O cheiro estava terrível.

Como não havia outra saída, padre Murari aproximou-se do caixão para dar suas bênçãos ao morto. Ih, mas quando abriram o caixão o cheiro aumentou! A situação estava muito ruim.

Proferiu rapidamente as palavras sacramentadas recomendando o defunto.

Saiu logo em seguida, ainda mais contrariado do que quando entrou e, tapando suas narinas com uma das mãos e gesticulando com a outra, ordenou a todos que retirassem o quanto antes aquele caixão:

- Pronto, pronto! Agora tratem de levar esse defunto... Que vá feder lá nos quintos dos infernos! – resmungou padre Murari.

domingo, março 26, 2006

41) Desempate animal

Este caso, lembrado pelo historiador Antonio Alcebíades Paes, ocorreu em uma ocasião em que a Quadra ainda não tinha sido emancipada, fazia parte do município de Tatuí. Era o Distrito de Quadra, hoje Município de Quadra.

Havia certa rixa entre os moradores do atual município para com moradores da sede, decorrente de inúmeras razões, incluindo o descaso que algumas administrações de Tatuí mantiveram em relação ao distrito.

Certo dia marcou-se um espetacular jogo de futebol entre o glorioso Palmeiras de Quadra e a Seleção de Tatuí. O jogo, que aconteceria em um campo de futebol do distrito, foi ansiosamente aguardado pelos entusiastas. O time quadrense já possuía uma torcida respeitável e, como era contra um selecionado tatuiano, praticamente a população inteira de lá torcia contra os visitantes.

O jogo aconteceu em um domingo. Coincidentemente foi um lindo dia. Desde o amanhecer o dia prometia ser bom... e foi mesmo. O sol brilhava em um céu todo azul. Uma brisa suave e refrescante soprava de quando em quando, sem esfriar e deixando um clima agradável.

Churrascos, cervejas, chopes e batidinhas foram consumidos desde cedo. O dia começou com desafios de cururu, entre tatuianos e quadrenses. Na parte da manhã também teve um torneio de truco movimentando o centro de Quadra.

Desafio de Cururu

Apesar da movimentação, a expectativa era a partida de futebol, marcada para as 4 horas da tarde.

As pessoas estavam alegres e não havia clima para brigas, muito comuns nesse tipo de festa. Os comerciantes de Quadra estavam satisfeitos, pois muita gente estava visitando o lugar, consumindo bebidas, refrigerantes, sorvetes, refeições... “Ah, se isso acontecesse sempre!!!” – pensavam as pessoas mais esclarecidas – “Poderia movimentar a economia da região!”.

O dia transcorreu alegre. Logo depois do almoço, as pessoas já iam encaminhando-se para o local do jogo. Até mesmo a partida preliminar foi assistida por uma multidão.

Era um belo cenário. Belo e colorido. Belo, colorido e alegre!!! Crianças, jovens, adultos e velhos, homens e mulheres, lotavam os arredores do campo. O campo, no entanto, era improvisado, não tinha nem mesmo cerca. Sem fazer trocadilho, o campo era só um descampado.

Mas isso não diminuiu o brilho da ocasião. As redondezas estavam cheias de vendedores de caldo de cana, pastéis, salgadinhos, latinhas de cerveja... e incontáveis sorveteiros.

Chegou a hora do jogo principal. Um dos jogadores era o Formigão Soares que, apesar de morar em Tatuí, jogou para o time do Palmeiras de Quadra. Era o seu time do coração!

A partida estava difícil para ambas as equipes. A multidão assistia sem avançar no campo. Mesmo sem qualquer cerca, havia uma marcação feita com cal no chão, que as pessoas respeitaram todo o tempo. Ninguém invadiu o campo. Não aconteceu nenhuma ocorrência negativa. O policiamento, reforçado nessa ocasião, praticamente não teve trabalho. Uma bela festa, sob todos os aspectos.

GOOOOOL! – o Palmeiras de Quadra marcou o primeiro gol.

A vibração dos torcedores era intensa, mas durou pouco. Menos de um minuto depois a seleção tatuiana marcava o seu gol: GOOOL!!!

E assim foi o jogo: 1 x 1 até quase o final.

No último minuto, o time de Quadra foi cobrar um escanteio. Todos os olhares estavam voltados para o jogador que ia chutar. Pumm! Chutou.

Escanteio!

Nesse instante, sem que ninguém percebesse, uma vaca entrou no campo. Não havia cerca e a grama lhe pareceu apetitosa!!!

Bumm! A bola acertou bem na testa da vaca, desviou-se e, pasmem, entrou no gol!!!

GOOOL!

Móóóóóóóóó!

- Hei juiz, tem que anular! – gritaram os jogadores da seleção tatuiana.

- Não, tem que marcar! – rebateram os quadrenses.

-Não! Sim! Não! Sim! – a paz que reinara até aquele instante estava ameaçada.

O juiz não sabia o que fazer. A multidão já estava entrando em campo. Os policiais, que não haviam tido qualquer problema, eram insuficientes para conter a multidão.

Discute-se aqui. Discute-se ali. Foi gol! Não foi gol!

Alguém trouxe a solução:

- Escutem aqui: a vaca é de Tatuí ou da Quadra?

- Da Quadra!

- Então é gol da Quadra!

O juiz então resolveu que o gol seria mesmo validado. A vaca era da Quadra e o gol ficou para o Palmeiras de Quadra. Aiaiaí, Alcebíades! Será verdade isso?

quarta-feira, março 22, 2006

40) É boi, é?

Quando passo por uma rua, às vezes fico pensando em quem deu seu nome para ela. Umas são fáceis de descobrir: Sete de Setembro, Onze de Agosto, Duque de Caxias, Cruzeiro… mas outras podem ter uma história por trás, uma homenagem aos ilustres personagens da sociedade tatuiana e nacional.

É boi, é?

Quando é, por exemplo, Rua Professor Fulano de Tal, já dá para ter uma idéia do motivo pelo qual essa pessoa foi homenageada… era um professor. Outro foi prefeito, capitão, coronel, etc, e tal.

Mas o que estava intrigando no momento em que passei pela rua foi o “título” dado ao homenageado: Avenida Cientista José de Barros Magaldi. A homenagem dada foi merecida, pois ele havia sido um cientista… Mas que pesquisa havia feito? Foi cientista em que área? Não conseguia encontrar ninguém para esclarecer.

Descobri, no entanto, uma versão não-oficial contada pelo Julio Vieira, da Livraria Vieira (ficava onde é hoje a FarmaPonte).

Antes de prosseguir tenho que registrar que o Julio Vieira merece não apenas ser citado aqui. Ele vale um capítulo inteiro, só para contar suas artimanhas para escapar de dona Irma, sua esposa, e ir aos bares tomar as suas… Fica para uma outra ocasião.

Julio Vieira contou ao Bi que o cientista José de Barros Magaldi estava desenvolvendo importantes estudos na área biológica, mais especificamente envolvendo a bovinocultura.

Hoje, o Brasil é o maior produtor mundial nessa atividade, mas não era muito desenvolvida na década de 50, mesmo tendo o país um importante rebanho.

Sabe-se que o aproveitamento da carcaça do boi é quase total: carne, couro, ossos, chifres… aproveita-se tudo. Ou melhor, segundo Julio Vieira, aproveitava-se quase tudo. E isto é o que o cientista desejava mudar… desejava aproveitamento de 100%.

Só assim para escutar o berro do boi!

Resumindo: de acordo com essa versão, José de Barros Magaldi realizava estudos para aproveitar o berro do boi no matadouro, a única coisa não aproveitada do animal.

Bem, se fosse mesmo isso, não houve sucesso!

Um bife é muito bom, mas o abate é uma judiação!

Este caso todo não passa de uma brincadeira do Julio Vieira.

O cientista José de Barros Magaldi desenvolveu estudos na área de hipertensão arterial e função renal no Hospital das Clínicas (1950 a 1977)

Aproveitando o momento, alguns bovinos fazem a campanha que mais lhes interessa!

terça-feira, março 21, 2006

39) Caipirices ao extremo

Quando escrevi o caso da prótese ocular, lembrei-me da mansão dos Salles Gomes, ali na Praça Paulo Setúbal, na época em que lá residia o Pingo (Carlos Eduardo Vieira de Morais). A gente brincava no quintal da casa, que ocupava o quarteirão todo. Frutas de todo tipo. Era um lugar onde moleques tinham muitas coisas para fazer sem ter que sair na rua. Hoje é a casa do Birdinho.

Na época em que morava lá, seu Rubens, pai do Pingo, negociava automóveis de luxo. Os carrões que apareciam por lá eram todos estupendos.

Mas havia um especial: o Chevrolet Impala! O carro que fazia mais sucesso nesses anos. Lembro-me de um branco, ano 1964, conversível, uma verdadeira maravilha sobre rodas. Um sábado à noite o Pingo deu um jeito de tirar o carro sorrateiramente de sua casa e saímos dar umas bandas... Nós, nesse tempo, éramos todos menores de idade... 14, 15 ou 16 anos!!!

Mas aquele carrão era muito para as ruas tatuianas, que então não tinham pavimentação em sua maioria. Além disso, a cidade começava na Rua São Bento e acabava ali na rua Cel. Guilherme. De outro lado, iniciava na Avenida das Mangueiras e findava no Marapé. A cidade era muito menor.

Como o carro pedia asfalto, fomos, nessa noite, até Capela do Alto, viagem que o Pingo aproveitou para acelerar... acelerar... acelerar... A estrada era nova, o asfalto lisinho, dava gosto andar nela.

Chevrolet Impala conversível 1964

Em Capela do Alto passamos rapidamente pelo centro, onde estavam as pessoas. Para esnobar, no momento em que passávamos na praça da cidade, o Pingo apertou o botão que baixava a capota conversível. O carro lotado de moleques: Pingo, eu, Tadeu Lourenço, Fred Lorenzetti... viramos na primeira esquina e passamos novamente na pracinha, desta vez o Pingo havia apertado o botão para recolher a capota...

Os caipiras de Tatuí tentando impressionar o pessoal de Capela!!! E vai e volta, e ergue a capota e baixa a capota... Seja como for, parou tudo em Capela do Alto para ver o Impala conversível.

A intenção era chamar a atenção das meninas, mas o que aconteceu, de verdade, foi que os caras ficaram queimados com a gente e estavam já se organizando para dar uma surra em nós. Por nossa sorte um pouco antes disso o Pingo resolveu vir embora e, na estrada, ninguém alcançava um Impala. Disto, que as pessoas estavam tentando bater na gente soubemos uns dois ou três anos depois, quando um desses capelenses veio estudar em Tatuí e foi meu colega. Ele quem contou, quando comentei a respeito de nossa viagem de conversível.

O Impala conversível era uma maravilha

Não sei como é hoje, mas há 30 ou 40 anos, eram comuns essas rixas entre cidades. Dá para citar, por exemplo, a relação entre Tatuí e Itapetininga: tatuianos não podiam ir a Itapetininga que logo apanhavam do pessoal. Da mesma forma, os itapetininganos não podiam vir a Tatuí sem apanhar. Conta-se de uma vez que o Zé Turco, o Munir, o Turcão do Bar 80 e mais dois amigos foram até Itapetininga em um Gordini. Nesse carro mal cabiam 5 pessoas um tanto apertadas (ainda mais uns passageiros do tamanho destes). Mas eles apanharam tanto por lá que só couberam 4 pessoas para voltar!

Escapamos por pouco de apanhar em Capela do Alto. Mas imagine só, isto é caipirismo ao extremo... ergue capota, baixa capota, ergue capota, baixa capota!!!! Acho que algo assim merecia mesmo uma surra! Que coisa!

domingo, março 19, 2006

38) Meio século de encrenca

Motivo para brigar não é difícil encontrar. Concursos constituem sempre uma fonte de controvérsias. Raramente as decisões são unânimes e, contando com interpretações pessoais disto ou daquilo, pontos de vista podem ser diferentes.

Contudo, muitos problemas graves são logo esquecidos, outros nem tão graves, podem ser sempre motivos de discórdia, como o grande impasse ocorrido na eleição da “criança mais linda de Tatuí”, em 1951.

A eleição da criança mais linda de Tatuí provocou grande impasse

Concorreram, dentre outros bebês, o bebê Mário Pavanelli e o bebê Mário Luís “Caresia”. As controvérsias arrastaram-se por toda a segunda metade do século XX, chegando até os dias de hoje, sem solução.

O fato contestado merece ser relembrado. A eleição da criança mais linda, promovida foi vencida pelo bebê Marinho Pavanelli, um resultado contestado pelo avô materno do bebê Caresia, que tinha convicção de que seu neto foi o vencedor... o bebê Caresia tinha pernas roliças, bochechudo, pele cor-de-rosa... sem dúvidas, poderia mesmo ser o vencedor.

Apesar das brigas dos mais velhos, os bebês não estavam nem aí para a encrenca

Entretanto, os juízes do concurso escolheram o bebê Pavanelli, fato que nunca foi aceito pelos familiares do bebê Caresia, que suspeitavam de alguma espécie de lobby no Posto de Puericultura, influenciando a comissão julgadora e alterando o resultado final.

Marinho Pavanelli foi escolhido como a criança mais linda de Tatuí

A insatisfação do velho Caresia foi tão intensa que acabou por desentender-se com o organizador e juiz presidente do tal concurso, o saudoso Dr. Almiro, que foi, inclusive, meu pediatra. Uns dias após a divulgação do resultado do concurso, o Dr. Almiro passou em frente ao antigo Bar e Restaurante 80, na Praça da Matriz e, quando o velho Caresia percebeu a presença do médico, chamou e disse:

- Ô Dr. Almiro, vai entender de robustez infantil na pqp...! Proferiu o tal palavrão, um dos muitos de seu imenso repertório. Claro que o Dr. Almiro, homem educado e elegante, não respondeu e afastou-se do lugar.

Mas o velho Caresia, estava todo satisfeito e completou: - Ah, dei uma indireta no Dr. Almiro!

Indireta? Uau, imagine só como seria a direta!!!

Como conseqüência desses acontecimentos e devido a grande capacidade do Caresia em dar "indiretas" criou-se até mesmo uma coluna no jornal “O Progresso de Tatuí”, chamada de “As diretas do Caresia”, onde ele destilava seus comentários a respeito dos assuntos tatuianos...

Há poucos meses, “provoquei” todos os personagens deste caso, incluindo a mãe do bebê Caresia, que reafirmou sua opinião, de que a eleição teve seu resultado alterado por forças ocultas.

Em todo caso, Marinho Pavanelli ainda guarda, orgulhoso, seu diploma de “O Bebê Mais Lindo de Tatuí”.

sábado, março 11, 2006

37) Maquiavel andou por aqui

Quem mandava na cidade até a década de 60? Em última análise, o padre! Passaram muitos por aqui, mas alguns deixaram suas marcas na história de Tatuí, como padre Carvalho, padre Canto... padre Murari. Este último é mais uma vez enfocado aqui. Em uma época em que o mundo já havia mudado radicalmente, com o centro de decisões mundiais passando da Europa para os Estados Unidos, principal resultado da divisão planetária resultante da Segunda Guerra Mundial.

A separação entre Estado e Igreja havia ocorrido há muitos anos, mas não “de fato”, pois a influência dos membros eclesiásticos era contundente. As mudanças não eram tão rápidas como na atualidade. Sendo assim, se as coisas em Tatuí contrariassem ao padre Murari, ele ficava furioso.

Confessionário

E o homem era bravo mesmo. Por qualquer coisa. Certa vez, logo depois de eu ter feito a primeira comunhão, fui ao confessionário para me preparar para o domingo. A primeira pergunta do Padre Murari foi:

- Quando foi que você veio à missa?

- Não me lembro direito! – respondi.

- Então vai lembrar e volte depois – falou o bravo padre, batendo na minha cara a portinhola do confessionário.

Assustado, fui até um banco da igreja, pensei, pensei e voltei ao confessionário. Com muito medo inventei uma data qualquer para deixar o homem contente. Acho que ele percebeu algo, pois me castigou com uma penitência representada por um monte de ave-marias e padre-nossos...

Até pensei: “Da próxima vez eu digo que vim no último domingo que ele não me dá tantas ave-marias e padre-nossos...”.

Entretanto, esta passagem já ocorre nos últimos tempos desse sacerdote em Tatuí. Pouco tempo depois é removido pelo bispo para Cerquilho, se não me engano, com a desculpa que, como já estava velho, precisava de uma paróquia menor... Mas depois de alguns anos, quando foi jubilado, voltou a Tatuí, onde faleceu. Este padre viveu seus anos finais com dignidade.

Padre Murari participava intensamente da vida religiosa, social e política de Tatuí. Eu, quando menino, morava na Travessa Pracinhas de Tatuí, ao lado da Casa Paroquial. Entre a casa paroquial e a igreja, perto do portão lateral, ao lado da casa S. Pio X. Explicando melhor, minha casa ficava mesmo era em frente ao poleiro da danada araponga do padre. Uma ave barulhenta que não perdoava os ouvidos de ninguém.

Lembro-me quando estavam construindo a Casa S. Pio X. A construção desse prédio, conforme relato de uma das pessoas mais bem informadas de Tatuí - segundo sua própria avaliação - fazia parte de um plano para tornar Tatuí sede de diocese. A igreja matriz foi construída para ser uma catedral e a Casa S. Pio X faria parte do palácio do bispo. Como a cidade era bastante progressista no início do século XX, parecia que seu crescimento seria constante, o que não ocorreu. A diocese está em Itapetininga!

Na época da construção da Casa S. Pio X, eu ficava na janela de casa olhando os atiradores do Tiro de Guerra recolhendo tijolos... formavam uma corrente de pessoas, um jogando para outro, que passava adiante, recolhendo, desta maneira, todos os tijolos em pouco tempo. Era bonito ver aquilo.

Aliás, assistir outros trabalhando é esporte nacional do Brasil. Acho que o mais popular depois do futebol.

Vamos voltar ao nosso padre...

Sem qualquer dúvida, dá para afirmar que o padre era um poderoso chefe político em Tatuí. Era totalmente envolvido com os assuntos da paróquia. Com aquilo que lhe cabia por força de suas atividades e com aquilo que sua consciência ordenava.

Urna eleitoral utilizada na década de 1950

Em uma eleição concorriam Camilo Vanni e Antonio Tricta Junior. O Tricta não tinha chances. Camilo Vanni tinha “papado” a eleição antecipadamente. Costumava-se cercar uma área destinada a um candidato... chamavam de curral. Lá tinha comes e bebes para os correligionários e para quem por lá passasse... O curralzinho do Camilo Vanni estava todo dia lotado... animação total... não havia chance de perder a eleição. A prefeitura de Tatuí já estava em suas mãos.

O curralzinho do Tricta assemelhava-se a um deserto. Não tinha ninguém! Era o candidato antecipadamente derrotado.

Só que – aqui entra o padre Murari – Camilo Vanni era espírita! Isto, até a metade do século passado era um pecado horroroso. Não só isso, mas ser protestante também era coisa terrível. Minha avó Maria, contava que, quando era menina, ela e suas irmãs, mudavam de calçada quando passavam em frente à igreja presbiteriana, que nessa ocasião era a única igreja não católica de Tatuí!!!!

Bem, uns dias antes das eleições, padre Murari começou a “doutrinar” as beatas de Tatuí. No confessionário, nas conversas, nos aconselhamentos, ele não deixava de dizer, com seu sotaque italiano:

- Não vote em Camilo Vanni! Ele é expíritaa! – ordenava padre Murari a todas.

Maquiavel sempre esteve na moda em Tatuí

Querem saber o que aconteceu? O vencedor foi justamente quem não tinha chance: Antonio Tricta Jr.

Padre Murari conseguiu reverter um fato dado como definitivo, com o poder que exercia sobre os cidadãos.

Até parece que liam, como hoje, o Príncipe, de Maquiavel.

sexta-feira, março 03, 2006

36) Caso macabro

Este caso macabro e escabroso foi contado pelo Zezinho Malaquias, que ouviu do Darci Quinteiro. Vamos lá:

A subida do Morro Grande era muito mais íngreme que hoje. Há alguns anos foi rebaixada um pouco, aumentando em comprimento, mas reduzindo seu ângulo. Esse acesso foi chamado de Morro Grande Velho, depois que foi rasgada a “estrada de Porangaba”, atualmente denominada de Avenida Pompeu Reali.

A subida do Morro Grande Velho era terrível. Mas tinha sua serventia extra, mesmo depois da nova estrada de Porangaba, que desviava do tope, subindo mais devagar. Não havia negócio de mulas ou cavalos em Tatuí sem que o animal fosse experimentado nessa subida:

- Pode exprimentá! O animar sobe o Morro Grande co arreio compreto! – diziam os negociantes de eqüinos e muares.

Só os melhores animais conseguiam subir o Morro Grande Velho

Como via de acesso a subida do Morro Grande Velho havia sido substituída pela atual Avenida Pompeu Reali, mas ainda residiam algumas famílias nessa região. Atualmente há até mesmo condomínio para a classe média.

Este caso que conto aqui ocorreu há mais de trinta anos, ocasião em que o Darci Quinteiro tinha um bar logo no início da Rua Capitão Lisboa. O acesso pela avenida já era todo asfaltado, mas a velha subida do morro continuava do mesmo jeito... uma lama terrível, visto que ali o barro é grudento, terra piçarra ótima para olarias e péssima para o trânsito de veículos.

Um dia faleceu um morador do alto do morro, quase lá no bairro da Guardinha. Estava desenganado, passou mal desde a noite e faleceu pouco antes do meio-dia... Como os recursos eram poucos, o cunhado do morto desceu na cidade para avisar a funerária e acertar a arrumação do defunto em sua última viagem.

O homem cobriu o corpo do morto e foi buscar ajuda

Resolveu parar no bar do Darci Quinteiro para limpar os sapatos do barro do morro, antes de prosseguir em sua caminhada.

Entrando no bar, contou ao Darci o que havia acontecido, que seu cunhado faleceu e que estava indo acertar a funerária e alguém para limpar e arrumar o defunto. Uns fregueses que lá estavam ficaram condoídos com o homem. Sabendo de sua triste situação, ofereceram uma bebida para que este pudesse continuar com um pouco mais de ânimo.

Claro que ele aceitou aquela oferta! Era justamente o que mais precisava naquele momento, um pouco de álcool para reduzir suas preocupações.

Enquanto tomava a bebida, chegaram mais alguns freqüentadores que, sabendo da história do falecimento do tal sujeito, ofereceram mais uns tragos. Queriam amenizar a infelicidade do cunhado do defunto.

Entra freguês e sai freguês e cada um pagava uma bebida... qualquer coisa que ele desejasse... daí ele percebeu que essa história de defunto estava lhe rendendo bebida de graça.

Com uma história tão triste não faltou bebida e nem cigarros.

Em pouco tempo, foi juntando gente no bar. Chegaram alguns chapas que tinham acabado de receber por uma descarga ali na Indústria Marapé. Acharam que até conheciam o defunto, não tinham certeza, mas isso não importava. Aqueles homens, com dinheiro no bolso e um motivo para beber, passaram a tomar todas... o pobre homem, que nem precisava mais fazer cara de dó, pois já estava de dar dó, não parava de tomar... Brahma, Antarctica, quebra-gelo, Brahma, Antarctica, tira gosto... já tinha esquecido o que deveria fazer... estava “miando”...

As homenagens etílicas ao defunto não cessavam

Com essas tristes homenagens ao defunto, as horas foram passando. Ele que tinha saído pouco depois do meio-dia, não percebia que a tarde estava no fim. Não estava com fome, porque havia saboreado uns tira-gostos... mortadela... queijo provolone com óleo de oliva... coxinhas... almôndegas... tudo acompanhado de molho de pimenta e muita bebida.

Quando caiu em si percebeu que já era quase noite:

- Ai, eu preciso buscar alguém para limpar o defunto!!! – exclamou.

Os outros fregueses já estavam a “mil por hora”, mas um deles falou:

- Fica sussegado que nóis vai lavá o defunto pra você!

Isto deixou o homem tranqüilo, que aceitou mais uma cerveja oferecida por outro freqüentador do bar. Um pouco mais de tempo e o Darci avisou que ia fechar o bar. Assim, saiu o homem acompanhado de mais quatro “paus d’água” e dirigiram-se para o morro.

Certamente que a tarefa a ser realizada não era coisa para todos. A maioria das pessoas não se sentem confortáveis em lidar com defuntos. Sabedores disto, tiveram o cuidado de levar umas garrafas de cachaça para dar ânimo durante a limpeza do morto.

Chegaram os cinco depois de muita dificuldade para subir o morro. Pudera, estava tudo escuro e, para completar, bebiam há horas! A viúva estava desesperada. Não era para menos, seu irmão saiu muitas horas atrás para buscar ajuda para enterrar seu esposo e só agora retornou. Resta lembrar que, nessa época, eram raras as residências nesse bairro. Uma isolada da outra. A viúva não saiu de casa para não deixar o defunto sozinho, esperando, de um momento para outro, a chegada da funerária. Isto não aconteceu.

O defunto ficou o dia todo estirado na cama

Vieram apenas os pinguços que passaram a tarde bebendo em homenagem ao falecido. Na casa, de pau-e-barro, só tinha um pequeno lampião a querosene. A escuridão era quase total. Mas resolveram assim mesmo lavar o defunto para ajeitar em sua roupa, para a viagem final.

Para realizar aquela tarefa desagradável, continuaram a beber enquanto ensaboavam o defunto

Encheram de água uma bacia e, com bastante dificuldade, carregaram o morto. Estava já enrijecido... colocaram seu corpo sobre a bacia. Não conseguiam dobrar o corpo para colocar as nádegas na água.

- É só forçar um pouco que dobra! – disse um deles.

E assim fizeram. Forçaram para que o corpo do defunto mergulhasse na água, para que fosse possível lavar adequadamente as suas partes íntimas. Mas ao forçar o morto, alguns gases foram expelidos, por todos seus orifícios. O processo de decomposição já estava em andamento.

Na limpeza, enquanto um deles jogava água com uma caneca, outro esfregava o sabão no defunto. A luz não clareava direito.

De repente, o pinguço que ensaboava deixou cair o sabão na água. Como estava quase totalmente escuro, enfiou a mão na água e, tateando, encontrou algo quee pegou para continuar a esfregar.

Esfrega aqui e esfrega ali e o morto começou a cheirar mal. Muito mal.

- Ainda bem que nós viemos lavar o amigo. Ele já está fedendo muito! – disse um dos prestimosos limpadores de defunto.

Só que o cheiro não saía, pelo contrário, aumentava cada vez mais. Aquele que ensaboava o defunto foi cheirar sua própria mão, pois não agüentava mais o fedor.

- Ai! Cadê o sabão? – exclamou surpreso - Meu Deus! O que foi que aconteceu? Parece que virou merda!

E realmente o que estava em sua mão não era nenhum sabão. Era um cocô do defunto... Quando dobraram o corpo do morto sobre a bacia, foram expelidos gases e um pouco de fezes. É coisa normal em defuntos que, mesmo algum tempo depois de mortos, ainda possam expelir fezes.

Aconteceu que nesse momento em que o fizeram dobrar, o defunto obrou. Quando caiu o sabonete, o pau d’água que pegou a coisa dentro da bacia não conseguiu identificar direito e pegou um cocô do defunto...

A viúva desandou a chorar quando percebeu o que estava acontecendo

Estavam espalhando merda no defunto. A limpeza estava dando resultados opostos. Em vez de limpar, sujaram o morto. Ficou tão sujo como se tivesse caído em uma fossa negra. Arre, que situação!!!